
A também arquiteta modernista Lina Bo Bardi (1914-1992) dizia que o temperamento tímido de Vilanova Artigas fez com que ele andasse sempre "na sombra". Sua arquitetura delicada e didática permitiu que muitos aprendessem o seu estilo, mas não o alçou à fama. É natural que o nome do arquiteto seja conhecido em São Paulo, cidade onde ele desenvolveu sua carreira e formou gerações de profissionais, mas, para especialistas, é incômodo o fato de em Curitiba ele ser, até hoje, um ilustre desconhecido.
"É um clássico curitibano não sermos tão afinados com a prata da casa, isso aconteceu com vários artistas importantíssimos daqui. Sorte que o meio acadêmico não tem fronteiras", acredita a arquiteta Giceli Portela, proprietária da casa projetada por Artigas em 1949 para o médico João Luiz Bettega. Ela assumiu uma missão pessoal de disseminar que, sim, Artigas, nome de valor internacional no meio arquitetônico e reverenciado pela academia, é curitibano. "Sempre provoco os paulistas quando eles nos visitam", conta. Giceli reúne desde o ano passado materiais e depoimentos para o festejo ao centenário de Artigas, que acontecerá em 2015.
O arquiteto, historiador, professor da UTFPR e autor do livro Espirais de Madeira: Uma História da Arquitetura de Curitiba, Irã Dudeque ressalta o fato de Artigas ter lecionado e formado profissionais que levaram suas ideias adiante. "Ele criou o prédio do curso de arquitetura mais poderoso do país." Assim como Giceli, Dudeque também acha que a cidade natal de Artigas não o valoriza como deveria. "Curitiba não reconhece. Artigas é um grande arquiteto brasileiro de Curitiba."
Comparação
As esculturas monumentais que Oscar Niemeyer (1907-2012) realizou no Brasil, além do projeto da capital Brasília faz com que ele e Artigas que acreditava em um viés mais simples e funcional sejam incomparáveis. "O Niemeyer conseguiu ser um arquiteto popular como ninguém, nenhuma outra pessoa projetou uma cidade toda e foi reverenciado como ele, é algo único", salienta Dudeque.
Obras
Veja algumas das principais edificações projetadas pelo arquiteto João Batista Vilanova Artigas no Paraná e em São Paulo:
Curitiba
Casa Vilanova Artigas/Casa Bettega (1949)
Marcelo Elias/Gazeta do Povo
Projetada em 1949 para o médico João Luiz Bettega, é um dos poucos exemplares de casas modernistas que restaram em Curitiba, localizada da Rua da Paz. Na década de 2000, a especulação imobiliária fez com que outros imóveis pensados por Artigas e por outros arquitetos, como Lolô Cornelsen, fossem abaixo. Dos 140, sobraram 25.
Hospital São Lucas (1945)
O prédio na Avenida João Gualberto é uma interpretação de Artigas para os conceitos do urbanista e arquiteto francês de origem suíça Le Corbusier (1887-1965).
Londrina
Rodoviária de Londrina (1952)
Arquivo Casa Vilanova Artigas
É de Artigas a antiga estação rodoviária de Londrina, hoje transformada em Museu de Arte. Inspirado pela obra do Conjunto Arquitetônico da Pampulha, feito por Niemeyer em Belo Horizonte, Artigas utilizou arcos no projeto.
Cine Ouro Verde (1952)
Inaugurado no auge da exploração cafeeira na cidade. Tombado pelo patrimônio histórico, teve parte de sua estrutura prejudicada por um incêncio de grandes proporções no ano passado.
São Paulo
Estádio do Morumbi (1960)
Raul Garcez/Divulgação
Foi projetado por Artigas em 1952, que precisou de mais de 370 pranchas de papel vegetal para desenhar o estádio.
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (1969)
O projeto, feito oito anos antes da inauguração, é considerado a obra-prima de Artigas, que mal teve tempo de aproveitar a própria arte: no mesmo ano, foi cassado pelo regime militar e impedido de lecionar na USP, onde atuava.



