
Brasília - Se ainda restava alguma dúvida, a primeira exibição do filme Lula, o Filho do Brasil (assista ao trailer e veja as fotos), realizada anteontem à noite na abertura do 42.º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, confirmou as duas reações que deverão acompanhar o longa-metragem de Fábio Barreto (de O Quatrilho) aonde quer que vá. A primeira é uma imensa curiosidade a respeito do personagem central, que provavelmente levará um grande público às salas de cinema. A outra reação natural ao projeto de contar a biografia de um presidente da República vindo da classe trabalhadora, às vésperas da corrida presidencial de 2010, é a polêmica. Muito antes que se visse de fato o filme, as acusações de "eleitoreiro" já se alastravam.
Os brasilienses e convidados superlotaram o Teatro Nacional Claudio Santoro, deixando uma multidão fora do auditório e mais um bocado de gente nos corredores e escadas. A ponto de o diretor clamar ao microfone que os espectadores excedentes se retirassem, em nome da segurança. Ouviu vaias.
Circuito popular
Lula, o Filho do Brasil (leia resenha ao lado) tem tudo para ser um fenômeno nos cinemas nacionais. Pronto a bater recordes. A produção espera que se torne o filme com maior número de salas de exibição (mais de 500, inclusive as consideradas de "segunda linha", mais populares) desde a retomada, superando Se Eu Fosse Você 2, que também tem Glória Pires num papel de destaque.
Entre os convidados presentes na pré-estreia, a mais ilustre era a primeira-dama Marisa Letícia, que "aprovou" o filme, segundo contou Fábio Barreto na coletiva realizada ontem pela manhã, e convidou a equipe para um drink "informal" com o presidente, após a cerimônia de abertura do festival. O público presente, a julgar pelo grau de concentração durante a projeção, além das risadas nas cenas certas e das palmas finais, também deu seu aval, ainda que sem maiores demonstrações de entusiasmo.
Já a crítica, ao mesmo tempo em que elogiou o trabalho dos atores, especialmente a atuação do pouco conhecido protagonista Rui Ricardo Diaz, cobrou de Fábio Barreto maiores explicações sobre as escolhas feitas, insistindo no caráter político do filme que o diretor define antes como um "melodrama" e diz só ter adiado o lançamento para janeiro próximo por conta de um atraso na captação dos recursos o orçamento do longa é de R$ 12 milhões, o maior na história do cinema nacional.
"Qualquer forma de expressão artística vem acompanhada de um caráter político", argumentou Barreto. "A questão de querer reforçar que a nossa opção não é por um filme político, e sim um melodrama, é por ser a história de um ser humano, suas dúvidas, inseguranças, perdas. O primeiro plano desse filme é a história de um filho e uma mãe, que escolheu protegê-lo e formou sua personalidade. Temos um segundo plano, que é a família Silva, como milhares de outras que migraram do Nordeste em busca de uma vida melhor. Isso se sobrepõe ao caráter político, é um filme humanista."
Fábio e sua equipe também tiveram de justificar a ausência no roteiro de Lurian, a filha tardiamente reconhecida por Lula, e da mãe dela, Miriam Cordeiro, caso que veio à tona como um escândalo na campanha presidencial de 1989, em que o petista enfrentou Fernando Collor de Mello. A explicação dada foi de que as duas negaram a autorização para serem retratadas no filme.
Ainda durante a coletiva, o diretor foi alvo de críticos que desqualificaram completamente seus três filmes anteriores, mas classificaram o atual como "digno". Sem contrariá-los, mas assumindo a mágoa pelo julgamento negativo, Fábio afirmou ter pensado: "Vou fazer um baita filme porque está na hora". Ele avalia que conseguiu "humanizar" seu personagem, e rebateu a acusação de ter pintado um herói infalível: "É uma pessoa, que tem forças e fraquezas. Não procurei passar uma pessoa perfeita, não era minha preocupação se ele acerta mais do que erra."
* A repórter viajou a convite do festival.





