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Michael Keaton e Mark Ruffalo em cena de “Spotlight”. | Divulgação
Michael Keaton e Mark Ruffalo em cena de “Spotlight”.| Foto: Divulgação

A frase mais famosa de “Todos os Homens do Presidente”, filme de Alan J. Pakula de 1976, serviu durante anos como um mantra para o jornalismo. “Siga o dinheiro”, disse uma fonte ao repórter Bob Woodward (Robert Redford) durante a apuração do caso Watergate - como ficou conhecido o escândalo que levou à renúncia do presidente americano Richard Nixon.

Mas, num novo filme sobre o trabalho da imprensa, que vem acumulando tantos reconhecimentos quanto “Todos os Homens do Presidente” e já é apontado como um dos favoritos ao Oscar, a frase seria um pouco diferente. Para a equipe de repórteres retratada em “Spotlight: Segredos revelados”, a regra é: “Siga o padre”.

A comparação entre os dois filmes, ambos baseados em fatos, é óbvia. Eles têm um roteiro em forma de thriller, evitam excessos românticos típicos de Hollywood e acompanham a rotina de um jornal para revelar situações extremamente graves. Com estreia nesta quinta-feira (7) no Brasil, “Spotlight” começa em meados de 2001, quando um grupo de repórteres do jornal americano “The Boston Globe” iniciou investigação sobre como a Arquidiocese de Boston teria encoberto dezenas de crimes de abuso sexual cometidos por padres.

O grupo, na época formado por quatro jornalistas, se chamava Spotlight, e o impacto de suas reportagens incluiu a prisão de religiosos, o pagamento de milhões de dólares em indenização pela Igreja e a renúncia do cardeal Bernard Law do posto de arcebispo de Boston.

“Spotlight” dispensa adjetivos

Favorito ao Oscar, filme com Michael Keaton e Mark Ruffalo lembra investigação jornalística que denunciou indústria do abuso sexual em Boston

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Por tudo isso, o filme vem acumulando prêmios e aparece em praticamente todas as listas de destaques do ano. De Boston a Los Angeles, associações de críticos já elegeram “Spotlight” o melhor longa-metragem de 2015. Em novembro, venceu o Gotham Awards, dedicado ao cinema independente; e, no próximo domingo (10), concorre aos Globos de Ouro de drama, direção (Tom McCarthy) e roteiro (McCarthy e Josh Singer).

“Até a rádio do Vaticano fez uma avaliação positiva do filme. Foi surpreendente”, conta Michael Rezendes, um dos quatro repórteres que cobriram o escândalo em Boston e que, no filme, é interpretado por Mark Ruffalo. Também foi bastante interessante a reação da Igreja nos EUA.

Muitos bispos divulgaram comunicados encorajando as pessoas a assistir ao filme, e uma linha direta de telefone foi criada para que as vítimas que se sentissem mexidas com a história tivessem alguém com quem conversar.

Além de Rezendes, a equipe Spotlight era formada em 2001 por Walter Robinson (interpretado por Michael Keaton), Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams) e Matt Carol (Brian d’Arcy James).

A primeira reportagem do grupo sobre os abusos foi publicada em 6 de janeiro de 2002, depois de cinco meses de dedicação quase exclusiva à apuração – como é mostrado no filme, houve apenas uma breve pausa por causa dos atentados do 11 de Setembro. Com a repercussão do escândalo, o “Boston Globe” reforçou a equipe com outros quatro jornalistas durante um ano.

“O filme termina assim que publicamos a primeira história. Mas muita coisa aconteceu depois. O caso se tornou tão grande que quase toda a redação acabou se envolvendo em algum momento na cobertura. Às vezes ainda me pego investigando algo sobre o assunto”, recorda Rezendes, até hoje no “Boston Globe”.

Com as reportagens, a Igreja não teve opção a não ser criar uma comissão de investigação. Ainda assim, para muitas vítimas, não foi o suficiente. O cardeal Law renunciou, mas na verdade foi promovido a um cargo importante no Vaticano. Da mesma forma, bispos que trabalhavam com ele e ajudaram a encobrir os crimes também foram promovidos.

Ironicamente, a equipe do Spotlight foi procurada pela primeira vez por produtores com a proposta de adaptar seu trabalho para o cinema em 2008, mais ou menos na mesma época em que os jornais americanos começaram a sentir o efeito da crise financeira e da mudança de hábitos de seus leitores, que iam migrando para a internet. Em resumo, foi o início de um período difícil para o jornalismo impresso.

Mas a possibilidade de mostrar os caminhos de uma apuração de porte empolgou o grupo. A partir de 2012, quando a produção deslanchou, Rezendes e os outros repórteres puderam até ajudar na elaboração do roteiro para oferecer precisão aos diálogos.

“O filme mostra o valor do jornalismo investigativo. Aquela cobertura foi bem cara. Primeiro foram quatro repórteres trabalhando em tempo integral por cinco meses, e depois oito, por um ano. Além disso, tivemos o custo com advogados para ir à Justiça obrigar a Igreja a revelar documentos”, diz Rezendes. “Hoje, o Spotlight tem seis jornalistas. Por conta da crise, o jornal perdeu profissionais e teve que fechar escritórios no exterior. Mas ainda acreditamos que o jornalismo investigativo é o caminho para manter leitores. Uma das razões que levam o leitor a assinar um jornal é saber que ele terá algo distinto do que está de graça na internet.”

A série de reportagens do “Boston Globe” sobre os abusos sexuais está entre as mais premiadas da história do jornal, inclusive com um Pulitzer, o mais disputado troféu do jornalismo americano. Já o filme “Spotlight” caminha em direção ao mais disputado troféu do cinema americano. Os indicados ao Oscar serão anunciados no dia 14, mas a inclusão da produção na lista é tão certa quanto a relevância do bom jornalismo.

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