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América Latina

Derrota na Colômbia mostra nova tática da esquerda para questionar as urnas

Gustavo Petro: presidente da Colômbia contesta o resultado das eleições e repete uma estratégia cada vez mais comum na esquerda latino-americana
Gustavo Petro: presidente da Colômbia contesta o resultado das eleições e repete uma estratégia cada vez mais comum na esquerda latino-americana (Foto: EFE/Lenin Nolly)

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“Ainda é impossível saber quem é o presidente”, disse Gustavo Petro, presidente da Colômbia, na noite de domingo (21). Àquela altura, o país já registrava 99,8% das urnas apuradas e o candidato da direita, Abelardo de la Espriella, estava à frente por quase um ponto percentual.

Mas por que Petro, que já denunciava fraude desde a primeira contagem, ignorou 250 mil votos de diferença e foi às redes plantar dúvidas sobre o resultado? O motivo não tem nada a ver com cautela, muito pelo contrário.

O presidente apenas repetiu uma tática que começa a se espalhar pelos partidos de esquerda da América Latina: transformar qualquer derrota nas urnas numa disputa jurídica sem fim — um expediente testado recentemente em Honduras e no Peru.

Para entender a manobra de Petro, é preciso olhar para o sistema eleitoral da Colômbia, dividido em duas etapas (não dois turnos, como no Brasil). Primeiro vem o preconteo, uma pré-contagem informativa feita por empresas privadas. Depois é a vez da apuração oficial, conduzida por juízes e com validade legal.

Como a pré-contagem é divulgada, porém não tem valor jurídico, surge um intervalo de alguns dias entre o resultado preliminar conhecido pelo público e o que realmente vale. Foi nessa brecha que o presidente viu a chance de contestar a contagem desfavorável para seu candidato à sucessão, Iván Cepeda.

Desconfiança permanente

Não foi a primeira vez que Gustavo Petro recorreu a esse tipo de estratégia. Nas eleições presidenciais de 2022, quando disputava o cargo contra Rodolfo Hernández, ele também levantou suspeitas sobre o sistema administrado por empresas privadas contratadas.

Durante aquela campanha, Petro manteve uma narrativa permanente de desconfiança, afirmando que a elite política poderia manipular o processo para impedir uma vitória da esquerda. As missões internacionais validaram a eleição e ele acabou declarado vencedor do segundo turno.

O presidente repetiu a prática neste ano. Após a o preconteo, no final de maio, ele acusou sem provas a empresa local Thomas Greg & Sons de incluir em seu software 800 mil eleitores “fantasmas” no cadastro eleitoral.

Gustavo Petro ainda afirmou que Israel interferiu no programa de computador da pré-contagem, para favorecer a divulgação de resultados favoráveis a Abelardo de la Espriella. A razão, segundo o político, é o seu histórico de críticas à atuação dos israelenses em Gaza, que ele classifica como “genocídio”.

Petro questiona o preconteo porque ele não tem nenhum valor jurídico na Colômbia. Dessa forma, ele não precisa negar a democracia — apenas a coloca em dúvida por alguns dias.

“Golpe eleitoral”

O exemplo mais claro dessa nova estratégia da esquerda latina veio de Honduras, no final do ano passado.

Rixi Moncada, candidata apoiada pela então presidente Xiomara Castro, fez feio nas eleições e ficou apenas com o terceiro lugar. Mas, em vez de aceitar o resultado, as duas passaram a denunciar um suposto “golpe eleitoral em curso”.

Segundo elas, o pleito foi manipulado por interesses externos. E o principal culpado atende pelo nome de Donald Trump.

O LIBRE, partido de Castro e Moncada, listou uma série de acusações contra Trump: apoio explícito ao candidato de direita Nasry Asfura, ameaças de cortar a ajuda financeira americana caso ele não vencesse e até o perdão concedido, dias antes da votação, ao ex-presidente Juan Orlando Hernández, também conservador e condenado por narcotráfico nos EUA.

O resultado oficial só saiu 24 dias depois da votação, na véspera de Natal, quando Asfura foi declarado vitorioso. Mas, durante semanas, a política hondurenha ficou em banho-maria, com o LIBRE divulgando teorias da conspiração e convocando seus militantes às ruas.

O caso traz um detalhe curioso. Na Colômbia, a esquerda ao menos pode alegar que a disputa está apertada. Em Honduras, porém, essa desculpa não existia. O partido governista ficou em terceiro, bem distante dos líderes. Ou seja: a contestação foi acionada quase como um reflexo automático da derrota.

Guerra de recursos

O Peru oferece uma variação dessa cartilha. No segundo turno presidencial, realizado no último dia 7, a candidata de direita Keiko Fujimori recebeu 50,11% dos votos, contra 49,89% do esquerdista Roberto Sánchez. O resultado oficial, no entanto, ainda não saiu. A apuração virou uma guerra de recursos, com cada ata disputada individualmente.

A esquerda peruana questiona a contagem, denuncia a influência do Congresso (dominado pela direita) e alimenta uma narrativa de processo viciado. A tese é a de sempre: as elites conspiraram, os juízes estão comprometidos, o sistema foi manipulado para impedir a vitória “popular”. Mas os observadores da União Europeia até agora não encontraram irregularidades graves.

Aqui vale registrar um dado interessante. No primeiro turno, quando Sánchez começou a subir na apuração, outro candidato direitista, Rafael López Aliaga, acusou as autoridades de fraude. Sem provas, Aliaga acabou recuando. Mas a esquerda peruana, como se viu em Honduras e agora na Colômbia, continua insistindo.

Sem tanques nas ruas

Nesta segunda-feira (22), Iván Cepeda anunciou que seu partido vai pedir a impugnação de 33 mil mesas eleitorais (cada uma com até 300 votos) devido a “erros” apontados por juristas de seu próprio partido. A apuração oficial deve ser concluída ainda hoje.

O mais irônico é que, durante décadas, a esquerda latino-americana construiu boa parte de sua identidade acusando a direita de não respeitar a vontade popular revelada pelas urnas. A versão “vermelha” do negacionismo eleitoral, no entanto, é mais sofisticada. Porque não propõe fechar o Congresso. Nem convocar tanques para as ruas.

A lógica, agora, é aumentar o custo da derrota. Ao tumultuar a apuração e inundar os tribunais com pedidos de contestação, os vencidos querem forçar um acordo nacional para garantir alguma participação (leia-se cargos) no novo governo ou manter o vencedor sob suspeita até as próximas eleições. Provavelmente, as duas coisas.

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