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O roteiro de Ellis A. Cohen’s  conta a história de Elizabeth P. “Betty” McIntosh, uma das espiãs mais lendárias da história dos Estados Unidos | Jonathan Newton/The Washington Post
O roteiro de Ellis A. Cohen’s conta a história de Elizabeth P. “Betty” McIntosh, uma das espiãs mais lendárias da história dos Estados Unidos| Foto: Jonathan Newton/The Washington Post

Ellis Cohen fazia compras num shopping de Maryland há uns dois meses e meio atrás.

“Não posso dizer onde”, diz Cohen.

Muitas conversas com o escritor, romancista e produtor de Hollywood, especializado no gênero de crimes reais, seguem desse jeito.

Um homem misterioso começou, então, a vir na direção dele.

“Ele usava uma camisa de botão, jeans e tênis”, conta Cohen. “O homem diz, ‘O seu roteiro com a Agência Central de Inteligência que tinha sido embargado foi liberado’”.

Cohen ficou assustado. Como era que um transeunte aleatório podia saber de um roteiro seu que há anos vinha juntando poeira?

Então, Cohen se lembra, o homem mencionou uma cena delicada. “Quando ele falou disso, eu acreditei nele na hora, porque as únicas outras pessoas que tinham o roteiro eram a Betty e a CIA. Eu perguntei, ‘Tem alguém que eu deva telefonar?’ E ele simplesmente foi embora. Eu não o segui”.

“Betty” aqui é Elizabeth McIntosh, uma das espiãs mais lendárias do país. Os dois haviam começado a trabalhar num roteiro para um filme sobre a sua vida há mais de uma década. Mas então ela pediu para ele parar. Ela disse que talvez a CIA não quisesse que o filme fosse feito.

Mas McIntosh morreu há um ano e meio, aos 100 anos. E então o homem abordou Cohen no shopping. Ele interpretou isso como um sinal de que não tinha problema ressuscitar o seu roteiro para “The Secrecy” (“O Sigilo”, em tradução livre), um filme baseado em entrevistas com McIntosh sobre a época em que ela trabalhou para a primeira agência centralizada de espionagem dos EUA, a Agência de Serviços Estratégicos (OSS, na sigla em inglês), durante a Segunda Guerra Mundial.

Cohen contratou a advocacia Wright, Constable & Skeen, de Baltimore, que o está ajudando a encontrar agentes e representação jurídica na Califórnia. Aos 71 anos agora, ele diz não ter mais medo da CIA.

O roteiro mostra como McIntosh teria supostamente descoberto que o Japão pode ter tentado obter materiais nucleares durante a Segunda Guerra.

Não fica claro o porquê de ela ter levado o roteiro à CIA procurando sua aprovação. A CIA tem permissão judicial para editar as obras escritas por funcionários, ex-funcionários e contratantes da agência – mas não jornalistas ou roteiristas de Hollywood que nunca fizeram o juramento de sigilo em Langley.

Talvez McIntosh tenha se sentido obrigada a levar o roteiro à CIA por ela ter contado a Cohen tanta coisa a respeito de sua vida como espiã, disse ele.

Ou talvez o que ela lhe disse não fosse bem certo. A OSS e especialistas em história nuclear expressaram ceticismo em relação a muitas das coisas que Cohen diz que McIntosh lhe contou.

Um porta-voz da CIA se recusou a comentar, citando uma norma geral de que a agência não discute casos que podem ou não ter passado já pelo seu Corpo Editorial.

Frustração

Cohen, que produziu os filmes para a televisão “Evidências Perigosas” (1999) e “Love, Mary” (1985), diz estar aliviado de ter permissão agora para tentar levar “The Secrecy” às telonas. Durante anos, ele vem cultivando sentimentos de frustração por conta da proliferação de histórias de espionagem que vêm surgindo na TV, que muitas vezes contam com consultoria da CIA, enquanto o seu próprio projeto foi sendo deixado de lado.

“Quando vi a estreia de ‘Homeland’, eu fiquei irritado de verdade. A série parecia ter sido aprovada pela CIA, enquanto eu fico aqui sentado e esperando”, disse Cohen em seu apartamento, onde as paredes estão forradas de recortes antigos de jornais da época do seu auge em Hollywood e fotografias suas com atores e artistas como Tennessee Williams, Dustin Hoffman, Sammy Davis Jr. e Faye Dunaway.

“Eu passei por um período bem frustrante. Nunca soube se devia levar a Betty a sério quando ela disse que o meu filme continha informações ‘confidenciais’. Eu não sabia se ela não estava tentando se livrar de mim. Eu perguntava ‘Tem alguém que eu possa telefonar na agência?’ E ela sempre dizia, ‘Não, querido’”.

McIntosh, vista nesta foto realizada em 2011 na cidade de Woodbridge, Virgínia, trabalhou na primeira agência de espionagem dos EUA, a Agência de Serviços Estratégicos (OSS, na sigla em inglês)Katherine Frey/The Washington Post

Cohen diz que começou a falar no telefone com McIntosh logo após a publicação de seu segundo livro de memórias “Sisterhood of Spies”, de 1998. Ele havia conhecido o editor dela numa feira do livro em Washington, D.C., e expressou interesse em transformar a vida de McIntosh em filme.

De 1999 a 2004, Cohen e McIntosh se falaram pelo telefone, e ele a visitou uma vez em sua casa em Loudoun County, no estado da Virgínia. E qual o trecho mais suculento desse roteiro?

Superbomba japonesa

McIntosh conta que ela e outros dois oficiais da OSS, de Nova Déli, haviam saído para comer comida japonesa no final de 1943 ou começo de 1944, quando ela escutou uma conversa de um empresário japonês que falava aos seus colegas de um plano do país de construir armas nucleares com urânio-235.

O então chefe da OSS, o General William “Wild Bill” Donovan, agindo com base no trabalho de inteligência de McIntosh, repassou para os seus assessores e para o Tenente General Leslie Groves, diretor do Projeto Manhattan – o projeto dos Aliados para construir a bomba nuclear –, e fez uma declaração atordoante: “Agora podemos confirmar a suspeita de Albert Einstein de uma superbomba [japonesa]... e eles vêm usando camponeses indianos pobres para contrabandear urânio-235 alemão pelo Himalaia para Burma. De lá, eles [os japoneses] utilizam pescadores para levar o U-235 para Tóquio”.

“Com base no que a Betty me contou, Groves apressou o Projeto Manhattan por causa dessa descoberta dela”, diz Cohen. “Betty disse que isso incomodava a CIA. Ela diz que ainda era informação confidencial”.

Descrença

A história parece “dúbia”, porém, para Alex Wellerstein, historiador do Stevens Institute of Technology, em Nova Jérsei, especializado na história de armas nucleares.

“Eu dei uma olhadinha detalhada nos arquivos de inteligência do Projeto Manhattan e nunca ouvi nada a respeito de uma transferência de urânio por terra”, disse Wellerstein. “No geral, os Estados Unidos não tiveram indicações durante a guerra de que o Japão tivesse interesse em tecnologia nuclear e não presumiram que o país fosse capaz de colocar em prática o trabalho envolvido. Sabemos o porquê de o Projeto Manhattan ter sido acelerado – foi por conta de tipos de circunstâncias inteiramente à parte”.

Cohen diz ter verificado a história dela com outros oficiais da OSS, incluindo Eloise Page, secretária de Donovan, que morreu no final de 2002, e Edwin Putzell, oficial executivo de Donovan, que morreu no final de 2003.

Ainda assim, Douglas Waller, autor da biografia de Donovan lançada em 2011, é extremamente cético quanto a essa história. “Um empresário japonês em Nova Déli teria informações sobre armas nucleares que alguém como a Betty – que trabalhava na parte de propaganda – poderia acabar escutando por acaso? E aí mandar de volta para Donovan? Eu não vi nada nos telegramas sobre isso”, disse Waller, que analisou mais de 40.000 páginas de mensagens da OSS e outros materiais para o seu livro.

Jennifer Laurence

Mas Cohen está levando adiante o seu roteiro, apesar dos descrentes.

Em outubro, seu advogado, J. Neil Lanzi entrou em contato com o The Washington Post com um release jubilante: “A Agência Central de Inteligência recentemente liberou o roteiro embargado do meu cliente”, ele declarava. “Ellis A. Cohen estava até então proibido de mostrar ou vender ou produzir o ‘The Secrecy’ como um filme”.

Agora, parece que ele teve o sinal verde.

E, caso “The Secrecy” entre em produção, Cohen terá outro desafio diante de si: Quem fará o papel de McIntosh?

“Não é certo já citar nomes”, disse Cohen, rindo. “Mas posso dizer isto: alguém que nem a Jennifer Lawrence”.

*Ian Shapira entrou para a equipe local do The Washington Post em 2000 e vem fazendo a cobertura de matérias sobre educação, justiça penal, tecnologia e ficção policial. Gosta de escrever sobre pessoas que serviram ao exército e a comunidades de inteligência.

Tradução: Adriano Scandolara
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