
Em ensaio escrito em 1954, o professor e crítico de literatura Paulo Rónai investigava as razões da pouca intimidade de seus alunos com as palavras. No texto, republicado recentemente na antologia Como Aprendi o Português e Outras Aventuras (Casa da Palavra), o intelectual húngaro elegeu os principais vilões da época. "A pobreza vocabular é uma consequência, sobretudo, da falta de leitura. Nossos jovens não têm tempo para ler... porque o rádio e o futebol e, sobretudo, as histórias em quadrinhos ocupam-lhe todos os lazeres", escreveu.
Quase 60 anos depois, há um consenso entre pedagogos de que a relação entre a leitura e as HQs é inversa. Os quadrinhos, na verdade, servem como uma ferramenta importante no processo de aprendizado e da construção do gosto pela leitura.
Com base nessa premissa, a editora Peirópolis mantém uma coleção de clássicos da literatura universal transpostos para as histórias em quadrinhos por cartunistas brasileiros de renome. Essas releituras retomam o texto integral ou as passagens mais significativas das obras, com símbolos mais contemporâneos e são um convite bem-humorado à leitura de grandes autores.
O lançamento mais recente é A Mão e a Luva (1874), romance da primeira fase de Machado de Assis (1839-1908), em que a tônica é a ambição e o desejo de ascensão social no rigoroso estatuto social burguês. As ilustrações são de Alex Mir e Alex Genaro. No catálogo da editora também se encontram I-Juca Pirama, de Gonçalves Dias (1823-1864), e Auto da Barca do Inferno, do português Gil Vicente, e outros títulos estrangeiros.
Folhetim
O texto de Machado trata da corrida pela mão de Guiomar, afilhada órfã da rica baronesa Mrs. Oswald, por três pretendentes.
Escrita como romance de folhetim, a obra tem uma estrutura em capítulos curtos, que atingem o clímax exatamente nas bodas de Guiomar. Essa estrutura favorece a narrativa em quadrinhos de Mir e Genaro, que, neste caso, souberam usar os elementos visuais para aguçar a curiosidade do leitor própria dos folhetins.







