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“Não importa se é só até ali na esquina. Pegue um táxi, não vá a pé nunca”, avisou uma senhora colombiana em Bogotá em uma noite fria de 2013. A cidade imensa fica no meio de duas montanhas. Elas servem como orientação natural e ordenam os números das avenidas. Mas são montanhas. E por isso faz muito frio pela manhã e à tardinha. Duas quadras separavam o lugar onde estava do lugar em que precisava estar. Mais problemas: táxi seguro, só aquele que se pede pelo telefone. O aviso era geral e constante. “Não embarque na rua, você pode ser sequestrado ou roubado.” Estava na Candelaria, centro histórico da capital da Colômbia, país que tenta deixar para trás a fama de perigoso incentivando o turismo e exportando simpatia.

Imagine como era há 20 anos. É este o clima da série “Narcos”, da Netflix. No fim de semana em que estreou, cometi o que se chama de bindgewatching – assistir a tudo de uma vez só. Porque é viciante. Intercala trechos documentais a uma história extraordinária narrada com engenhosa agilidade. Há explosões, tiros e bastante violência (é José Padilha, né), embora o fio condutor dos dez episódios seja, na verdade, a exposição da fragilidade política do país de Pablo Escobar e de nossa ignorância sobre o que acontece na esquina do continente.

A série é narrada por um agente da DEA, divisão antinarcóticos dos Estados Unidos. É uma visão exótica, portanto. Impressionista. E é impressionante a influência que os agentes ianques têm nas decisões políticas da Colômbia – o nome do candidato à presidência, por exemplo. Por que diabos eles se metiam tanto com a crise interna de um país sul-americano?

Lá pelo episódio oito, o vice-secretário de justiça do futuro presidente do país informa que o maior consumo de cocaína, o produto de Escobar, é coisa dos Estados Unidos. “Que tal se vocês resolvessem isso primeiro?”,cutuca.

Também em 2013, num passeio de bicicleta por Bogotá, o guia nos avisou, como se diz que alguém precisa amarrar os cadarços, que um tanque de guerra disparou mísseis contra o Palácio de Justiça. Era Escobar em ação – e também o alimento para o surrealismo de Gabo. Parte destas cenas (aconteceu no início dos anos 1990) é recuperada pela série. Assim, sem querer, “Narcos” expõe as consequências-limite da atualíssima “guerra contra o tráfico”, muleta para tapar o sol com a peneira quando o caminho mais coerente (e bem menos violento) envolve estratégias para a descriminalização.

Em muitas mesas de bar a conversa sobre a série engatou no sotaque de Wagner Moura. O espanhol do baiano é duro, sem a musicalidade verbal característica daquelas paragens. Não é nada chevere, como se diz por lá. Mas o que queríamos? Somos uma ilha portuguesa com os ouvidos tampados para os países que falam a língua de Sancho Pança. Nas aulinhas de idiomas, o inglês vem sempre primeiro, cabrón.

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