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Não é fácil ser novovô: aquele avô moderno que tem de lidar com carrinho de nenê tão engenhoso que a gente não consegue abrir nem fechar, e protetor solar, xampu infantil, brinquedos eletrônicos, celular que faz tudo (se a gente souber operar) e... limites.

Sim, limites, um novovô tem de saber limites.

Não bater de jeito nenhum, nem tapa na bunda, porque a psicóloga da escolinha diz que bunda e cabeça são a mesma coisa para a criança.

E novovô não deve falar alto, senão o neto aprende a falar alto. Até vendo futebol o novovô deve gritar "gooool" baixinho, como se nem fosse gol.

Falar palavrão, nem pensar. Não perder a calma, nunca, mesmo com vontade de esganar o guri que botou seu relógio dentro do filtro de água.

Não comer doce na frente dos netos, e até fazer careta de nojo, mesmo com vontade de comer até se lambuzar.

Não contar piada machista, nem sexista, nem racista, ou seja, não contar piadas.

Além de obedecer aos limites, o novovô precisa estimular. Conforme a psicóloga, criança precisa tanto de bons estímulos quanto de boa comida. Então o novovô deve desligar o futebol para ir bater bola com os netos na varanda, com muito cuidado para não quebrar nenhum vaso da vó. E andar de bicicleta com os netos, falando de ecologia. E ler historinhas para eles antes de dormir. E mostrar interesse pelos seus incontáveis desenhos. E...

Lembro que meus avós nunca me leram uma linha, mas como contavam histórias! Nono Beppe falava de gente morta como se estivessem ali na frente da gente, e contava casos de tropeiro, lembrava das derrubadas de mata, os cafezais e as geadas, peões e jagunços, riquezas e rixas.

Vó Tiana não contava histórias, mas cultivava poesia. Quando a cadelinha Laika foi mandada ao espaço, para morrer como pioneira da astronáutica, ela olhava para o céu e dizia aquela estrelinha lá é a Laika, quem morre para o bem da gente, vira estrela...

Ela plantava violetas em latas que iam enferrujando. Enquanto as violetas floriam, mudando de cor, ela explicava:

– A raiz vai bebendo a lata, a flor vai tresvariando...

Nona Paulina me dava uma moeda para ir comprar maria-mole, e pedia troco. Um dia, eu não trouxe o troco, porque comprei chiclete também. No dia seguinte, pedi moeda, ela falou:

– Era o troco de ontem...

Assim me deu a primeira lição de economia. Hoje, a psicóloga diz que educação financeira é vitalmente estratégica para o desensolvimento psicossocial. Então o novovô regula moedas e o neto retruca:

– Larga de ser munheca, vô!

Dou uma nota, a mãe reclama:

– Vai viciar a criança!

Não é fácil ser novovô. Só acerto mesmo quando também viro criança brincando com eles no chão. Aí as mães gostam, eles gostam, mas depois como dóem minhas costas! Digo que o novovô vai parar, porque não é de ferro, aí o menorzinho me morde. Digo que o novovô não é de gelatina, riem doidamente, vão gritando pela casa:

– O vô não é de gelatina, o vô não é de gelatina!

Isso me dá a única certeza nesta existência entre a eternidade e o infinito: não sou de gelatina.

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