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Roberto Gomes

Sílvio Santos centenário

Quando Sílvio Santos vai completar 100 anos, propõe grande programa de cem horas no ar, com gincana e shows, até encerrar com sua presença nas horas finais, diante de auditório como antigamente. Todos acham ótimo, mas o diretor fala constrangido:

O problema, patrão, vai ser arranjar gente para o auditório.

Ora, é só chamar minhas "colegas de trabalho"!

Todas morreram, patrão.

Sílvio Santos fica olhando o vazio, e todos veem como, sem maquiagem, tem o rosto inacreditavelmente enrugado, ou, como disse Jô Soares antes de morrer:

– Ainda tenho o sonho de entrevistar o Sílvio Santos, para saber se o personagem é mais real que o homem ou vice-versa.

Antes dos 90 anos, Sílvio Santos era visto como fenômeno de longevidade, depois virou símbolo de antiquidade.

Agora, quase centenário, recusa centenas de entrevistas, certo de que isso lhe trará ainda mais notoriedade.

Uma revista trouxe sua foto na capa, com o eterno sorriso, e o título: ELE CHEGA LÁ?

Ele mandou botar num telão, no cenário de seu programa, só com pequena alteração: ELE CHEGA LÁ!

Mas agora parece fraquejar, vacila, acaba perguntando num fio de voz que em nada parece o vozeirão histórico de Sílvio Santos:

Então... está difícil achar gente, é?

– Difícil, patrão. As pessoas evolu... ou melhor, as pessoas mudaram, ninguém mais quer participar de programas de auditório, que, aliás, nem existem mais, o senhor sabe, há anos fazemos seu programa com platéia virtual e aplausos eletrônicos.

– É... Quem diria que eu viveria para ver isso... Será que não conseguimos atrair gente com um lanche reforçado?

– O programa Barriga Cheia, do governo, deu tanta comida que a obesidade virou calamidade, patrão, todos agora fogem de comida.

E se dermos celulares de brinde?

– O povo pegou nojo de celulares e companhias telefônicas, patrão, há dez anos o senhor mostrou isso num programa.

– Ah, é... Voltou a ser moda as pessoas se visitarem em vez de telefonar, né... Até concordo, só não me conformo com essa mania de desligarem a tevê pra voltar a conversar em cadeiras na calçada!

– Mas o senhor não pode mais reclamar disso no ar, patrão, ou a audiência cai ainda mais! Estamos com menos de um por cento!

Todos sabem que Sílvio Santos só continua no ar porque é dele a rede SSR, Sílvio Santos Resiste, mas resiste com apenas meia dúzia de emissoras sucateadas, que só sobrevivem com anúncios de ração das indústrias do Ratinho. Um assistente estala os dedos:

– Já sei, patrão! Por que não fazemos o programa centenário com platéia de cães? Convidamos os cães e seus donos virão junto, assim teremos uma platéia mista, humana e canina, e as pesquisas indicam que as imagens mais agradáveis na tevê são de cachorros!

– Só não podem ser cães de celebridades – lembra o diretor – porque as celebridades hoje tem a mais alta rejeição.

Sílvio Santos suspira:

– Quem diria que eu viveria para... Ei, e se eu simular um ataque do coração no meio do programa? A audiência dispara!

E depois a rejeição também, patrão. O senhor sabe que...

– Sei, sei... Quem diria que eu viveria para ver um país de gente honesta, inteligente, sensível e cidadã? Será que eu devia me aposentar?

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