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Revista- Serrote 14. Instituto Moreira Salles, 240 págs., R$ 37,50. | David Trawin/Creative Commons
Revista- Serrote 14. Instituto Moreira Salles, 240 págs., R$ 37,50.| Foto: David Trawin/Creative Commons

O número 14 da revista Serrote, publicada pelo Instituto Moreira Salles, traz um texto valioso: o primeiro inédito do jornalista Joseph Mitchell (1908-1996) em 48 anos. Ele saiu originalmente na revista The New Yorker em fevereiro deste ano e foi traduzido por José Rubens Siqueira.

"O Segredo de Joe Gould", que virou livro (no Brasil, pela Companhia das Letras), tinha sido o último trabalho publicado por Mitchell em vida, em setembro de 1964. Depois, ele se tornou uma lenda por continuar trabalhando em seu escritório na redação da revista por 32 anos e não publicar mais nada.

O texto inédito é o começo de um livro de memórias que o escritor não finalizou – como, aliás, todos os outros trabalhos que fez nas três décadas de silêncio editorial. Em um debate realizado pela New Yorker, o editor da publicação, David Remnick, confirmou a existência de pelo menos mais um fragmento inédito – o que é mais ou menos um alívio porque o texto inédito termina bem quando o autor se prepara para dizer algo importante e ele planejava dizê-lo ao longo de um livro inteiro.

Mitchell era um sujeito nostálgico. E isso, nos anos 1940. Para ele, um bom bar não precisava de energia elétrica (como era o McSorley’s Wonderful Saloon, tema de um de seus livros) e um mercado de peixes podia ser a coisa mais fascinante do mundo.

No texto da Serrote, Mitchell conta como considerava fascinante caminhar por Nova York e literalmente se perder na cidade. Diz a lenda, publicada pela New Yorker, que um editor deu ao jovem Mitchell o conselho de palmilhar a cidade e conhecer as pessoas como poucos o fizeram. Foi o que o jornalista passou o resto da vida fazendo.

Em um parágrafo, ele lista os imóveis que chamam sua atenção: igrejas, hotéis, restaurantes, tavernas, casas de cômodos, delegacias, tribunais, gráficas de jornal, bancos, arranha-céus, atracadouros, garagens de balsas, mercados e meia dúzia de prédios em Nova York. O notável aqui é que ele lista esses substantivos todos sucedidos pelos adjetivos "antigos" ou "antigas".

O negócio de Mitchell eram lugares velhos, marcados pelo tempo. Ele estava interessado na história por trás de detalhes que poucos percebiam. Também se interessava por imóveis em construção e por imóveis em processo de demolição.

Ele era capaz de esquecer a hora, os compromissos e todo o resto enquanto apreciava um prédio de que gostava. É razoável supor que ele caminhava olhando bastante para cima.

A certa altura da vida, Mitchell começou a sentir que as coisas "haviam passado" por ele. Não conseguia mais se sentir bem em lugar nenhum. Imagine o tamanho do problema para alguém apegado aos detalhes do local em que vive. Nascido e crescido no estado rural da Carolina do Norte, ele se mudou para Nova York com 21 anos e adotou a metrópole-mor como sua casa, mas nunca deixou de visitar a terra natal.

O texto inédito tem como título: "A vida assombrada das ruas" ("Street life", no original). No parágrafo final, que termina deixando várias lacunas, o escritor fala sobre o que o afligia: "Comecei a me sentir dolorosamente deslocado onde quer que estivesse. Quando estava em Nova York, sentia saudade da Carolina do Norte; quando estava na Carolina do Norte, muitas vezes sentia saudade de Nova York. Então, numa tarde de sábado, quando estava andando pelas ruínas do Washington Market, aconteceu uma coisa que me levou, passo a passo, a superar minha depressão. Ocorreu uma mudança em mim. E é sobre isso que quero falar."

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