Dada a sua presença na literatura brasileira contemporânea, a questão que se impõe no estudo de Jorge Amado é implantar os marcos quilométricos de uma carreira condicionada por posições ideológicas profundas que se sucederam, contradizendo-se umas às outras, mais do que ele gostava de admitir (o que é natural). São os "acontecimentos", segundo afirmou, que determinaram a passagem do realismo socialista (chamando de "realismo stalinista" por Jean-François Lyotard) para o realismo convencional e "burguês".
Digamos que se trata das "contradições internas" do comunismo, paralelas e simétricas às que os teóricos marxistas costumavam apontar no capitalismo, para prever-lhe o iminente desaparecimento. Na primeira fase,
teorias, ideologias teorias ditas científicas, ideologias consideradas de pureza incontestável que seduziram intelectuais, imobilizaram multidões, massas populares, comandaram lutas, revoltas, guerras em nome da felicidade do homem, dividiram o mundo em dois, um bom, um ruim [...]
dominaram por muitos anos só o pensamento político, mas também a criação literária, escreveu em Navegação de cabotagem. Esse é, em grande linhas, o esquema dos seus romances entre 1933 e 1954. A essa altura, ele era, como todos os seus correligionários, ideológicos e militantes, um "stalinista incondicional", silenciando, "como convinha", sobre os aspectos negativos do sistema: "me sinto acima de qualquer suspeita, considero-me militante devotado, leal, fiel, intransigente, considero a União Soviética a pátria de todos os oprimidos e vejo em Stalin o pai dos povos e de cada um de nós" (Navegação de cabotagem).
Nos anos em que o stalinista Jorge Amado escrevia os livros do romancista Jorge Amado, ele foi, em nossas letras, mais do que qualquer outro (sem excluir Graciliano Ramos) o zhdanovista exemplar, à frente de uma legião de discípulos medíocres cujos nomes se perderam pelos confins da subliteratura. São os anos em que, submetidos a estereótipos ideológicos e a estruturas narrativas predeterminadas, seus livros eram, por assim dizer, previsíveis e de modesta qualidade o que, justamente, e por paradoxo, assegurou-lhes extraordinária popularidade, dentro e fora do Brasil, reunindo, como reuniam, os dois elementos essenciais, no caso complementares: o exotismo e o esquerdismo.
De Cacau a Capitães da areia, ele foi o romancista paradigmático do Partido, seriação em que Terras do sem fim, em 1943, introduziria "algo nuevo": a celebração da epopéia capitalista dissimulada sob as aparências da luta de classes, em que, na verdade, eram os "burgueses" que acabariam vencendo, pois, na dialética da história, eram eles os fatores do progresso:
Do sangue derramado na luta pela posse da terra, adubo sem igual, não floresceram apenas as raças de cacau, os frutos de ouro da riqueza, floresceu também a cultura grapiúna, singular. A poesia e a ficção nasceram das conquistas da mata, da colonização de sergipanos e árabes, da luta contra o feudalismo [...]. Os coronéis do cacau queriam orgulhar-se de filhos doutores, advogados, médicos, engenheiros, lá fomos nós para os colégios da capital, os dos padres jesuítas, maristas, salesianos, os leigos, o Ginásio Ipiranga de Isaías Alves de Almeida. Nos internatos aprendemos português e aritmética, nas roças, nos povoados, na gestação das cidades aprendemos a vida.(navegação de Cabotagem)
Os frutos de ouro, brotados da "luta contra o feudalismo", traduziram-se nos frutos de ouro das ciências e das letras Sosígenes Costa, Florisvaldo Matos, Telmo Padilha, Adonias Filho, James Amado, Sônia Coutinho, Hélio Pólvora, Jorge Medauar, Marcos Santarrita... Sou um deles, escreveu Jorge Amado, "possuo um mérito único: ter sido aquele que primeiro começou a contar a saga das terras grapiúnas". Era outra "contradição interna", aliás pouco percebida na época e depois dela.
A fórmula foi literalmente repetida, um ano depois, em São Jorge dos Ilhéus e, na última fase, com poderes criadores já esmaecidos, em Tocaia grande, período em que sua linha de inspiração mudara por completo, com Gabriela, cravo e canela (1958). Em outras palavras, seu espírito se recusava a interessar-se pela "luta contra o feudalismo". Gabriela é um romance urbano e de costume, além de ser uma celebração do capitalismo mais ortodoxo, o que Terras do sem fim e São Jorge dos Ilhéus faziam subliminalmente.
Começa a partir daí a seriação dos livros que podemos qualificar de "regionalismo urbano", com romances de qualidade desigual, entremeados com legitimas obras-primas romanescas, como Dona Flor e seus dois maridos (1966) e Tenda dos milagres (1969), que, na minha estimativa, é o melhor dos seus romances (nas duas fases), o mais "amadiano", quero dizer, o Jorge Amado virtual, aquele que vemos idealmente por trás dos seus livros menos felizes. Claro, o grande público prefere Teresa Batista (1972) e Tieta do agreste (1977), literatura pitoresca e esquemática, com os condimentos suplementares da salacidade, nem sempre do melhor gosto. Diga-se, de passagem, que esses livros fizeram de Jorge Amado a besta negra das feministas, menos da Itália, segundo me informam, onde, ao contrário, suas admiradoras reúnem-se em clubes de fervorosa devoção.
Nesse trajeto, ocorre outra "contradição interna", também imposta pelos "acontecimentos": ele se torna, no exterior, o escritor brasileiro mais representativo, à medida mesmo que, no Brasil, vê-se afastado, pouco a pouco, do centro vivo da criação literária. De fato, a preocupação social, documentalista e política da ficção dos anos 30, em que foi, ao lado de José Lins do Rego e Graciliano Ramos, figura eminente da trindade nordestina (com todos os mal-entendidos que isso normalmente comporta), sofreu um desvio de 180 graus, cedendo lugar à "literatura literária", ao esteticismo que, começando imperceptivelmente com Clarice Lispector em 1943 (ano de Terras do sem fim), ia ter em Guimarães Rosa o representante máximo.
A noção de "estilo", depreciativamente designado como "literatura" numa epígrafe de Jorge Amado, tornou-se sinônima, precisamente, de literatura. Será esse o "regionalismo" culto de Guimarães Rosa, cujo idioma, rebuscado e precioso, monopolizou por muitos anos o interesse da crítica e dos leitores. Isso durou até à década de 70, com a recuperação de Clarice Lispector e a contraditória desvalorização de Guimarães Rosa.
Chegamos assim ao momento deprimente dos balanços:
Quando eu era jovem, trabalhava à noite, passava a noite toda escrevendo. Eu escrevia depressa. A concepção mesmo do romance não mudou: é um processo de elaboração que se desenvolve na minha cabeça durante muito tempo. [...] Ainda é assim hoje em dia. A diferença é que, quando eu era jovem, acontecia-me, levando em conta a relativa fraqueza do rendimento, repartir. As idéias serviam para mais de livro. Por exemplo, a idéia que me levou a escrever Jubiabá forneceu-me dois outros livros, Mar morto e Capitães da areia, que já estavam lá e que se desenvolveram independentemente. [...] Isto continua a acontecer ainda hoje. Tenho que pensar as coisas. Somente o ritmo de trabalho é que mudou.
Quando eu era jovem, podia escrever oito, dez páginas... [...] Hoje meu trabalho me custa mais esforços que antigamente, porque tenho uma visão muito mais clara dos meus limites, e por outro lado, porque trabalho com cada vez mais profundidade.(entrevista a Alice Raillard)
Em outra passagem das mesmas entrevistas, ele reconhecia haver perdido, como era inevitável, o "fogo da juventude":
Eu escrevia dez, quinze páginas por noite, eu trabalhava à noite. Hoje, quando em vinte e quatro horas escrevo meia página, sinto-me feliz.
Aqui, não há contradição nenhuma, mas a simples lógica implacável dos anos que se sucedem, o "funeral para sempre das horas", como escrevia o melancólico Raul Pompéia.







