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Marcelo Cabral, Romulo Fróes, Rodrigo Campos e Kiko Dinucci: todos assinam composições no novo disco | Everton Ballardin/Divulgação
Marcelo Cabral, Romulo Fróes, Rodrigo Campos e Kiko Dinucci: todos assinam composições no novo disco| Foto: Everton Ballardin/Divulgação
  • CD -Passo Elétrico- Passo Torto. YB Music. Disponível para download gratuito em passotorto.com.br. Samba.

Nascido em uma espécie de núcleo criativo da música paulistana, o coletivo Passo Torto é um dos pontos de encontro de uma série notável de projetos artísticos paralelos. Não à toa, o recém-lançado Passo Elétrico, segundo disco do grupo, veio eletrificado, depois de um álbum de estreia marcado pela sonoridade acústica. Suas tênues linhas de fronteira foram invadidas pelas guitarras redescobertas por Kiko Dinucci e Rodrigo Campos em discos imediatamente anteriores, como MetaL MetaL e Bahia Fantástica (ambos de 2012). Marcelo Cabral – baixista que integrou o Passo Torto para fechar a formação que lançaria o primeiro disco em 2011 –, agora presente também como compositor, trouxe seus próprios pedais de efeito, que vem experimentando nas linhas de baixo acústico do MarginalS nos últimos anos, conforme ele mesmo conta. "Foi um caminho natural", escreveu, em entrevista por e-mail para a Gazeta do Povo. "Não temos um planejamento na hora de fazermos um disco. O álbum só reflete o momento em que estamos", disse o baixista.

Mais pesada, a nova sonoridade do grupo aprofunda os experimentos com os quais a banda vem subvertendo (com sucesso) o samba e a canção brasileira – possivelmente, com mais coesão que no disco anterior.

"Neste fizemos tudo a partir do zero. Como criamos todos os arranjos juntos, dá a sensação de que todas as músicas são de todos", conta Cabral, que assina três músicas com letras de Fróes ("Tempestade"), Campos ("Isaurinha") e Dinucci ("O Buraco") no novo álbum.

Os arranjos revelam o protagonismo de cada um nesta (des)construção. A harmonia e o sofisticado trabalho rítmico – marcado sem instrumentos percussivos – são tecidos por frases melódicas das guitarras, cavaquinho, violão e baixo acústico.

"Nós tocamos muito juntos e de diferentes formas. Esta engrenagem de pergunta e resposta e contrapontos parte simplesmente de um ouvir o outro e não falar em cima de ninguém. Esta engrenagem vira ritmo quando se está dentro de um andamento", esmiúça Cabral, citando como exemplos "Por Que Amar Você" e "Tempestade". "O ritmo e a polifonia andam juntos, parte da mesma ideia de pergunta e resposta."

Perguntado sobre o lugar do Passo Torto na usina de ideias musicais tocada pela turma que o circunscreve, Cabral diz que não tem ninguém ditando que caminhos seguir. "Um alimenta o outro", afirma o músico, diferenciando o coletivo dos trabalhos individuais. "No Passo Torto, não tem ninguém a frente, jogamos tudo numa panela. Sai o que sair, sem se importar de quem é a composição."

Passo Elétrico combina ruptura e continuidade

As bordoadas que abrem Passo Elétrico, seguidas de uma singela construção bem ao modo do Passo Torto em "Homem Só", são um bom anúncio do que se segue no novo disco do grupo. Há continuidade e coesão no que há de mais sofisticado – e, por que não, erudito; mas há também um expressivo ímpeto de ruptura – até destruidor desta mesma erudição – nas letras pesadas e guitarras rascantes que pontuam o disco (no que o passo elétrico do grupo vem muito a calhar). Se em Passo Torto (2011) a cidade é material para um tom cronista das canções, nos versos mais densos de Passo Elétrico é um organismo, que engole um indivíduo sozinho e entregue ("Homem Só", "Helena", "A Não Ser Que Me Ame"), bem como suas memórias ("O Buraco", "A Cidade Cai"). Em um cenário de tal monstruosidade, talvez pouca coisa tenha o poder de chocar. Daí o perturbador e o grotesco dos versos de Campos e Dinucci terem um lugar salutar – que se explica nos versos de "Rárárá": "Desculpe a dignidade/ De lhe dizer atrocidades/ Mas essa é a minha maior qualidade."

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