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Opinião

Documentário "Bem-Vindo a SP" traz visão de cineastas estrangeiros

"Bem-Vindo a São Paulo", produzido desde 2004 pela Mostra Internacional de Cinema de SP, nasceu da intenção de seus organizadores, Leon Cakoff e Renata de Almeida, de oferecer a um grupo de diretores internacionais a chance de registrar suas impressões da cidade.

Três anos depois, o filme coletivo entra em circuito nacional, constituído de 17 segmentos curtos, cada um assinado por um ou dois diretores diferentes.

Entre eles, o norte-americano Jim McBride (de "Força do Amor"), o australiano Philip Noyce (de "Perigo Real e Imediato", o malaio Tsai Ming-Liang (de "O Sabor da Melancia") e o alemão Wolfgang Becker (de "Adeus Lênin").

Dos 17 episódios, 13 registram os olhares estrangeiros. Outros quatro são de brasileiros, caso de "Odisséia", de Daniela Thomas, "Natureza Morta", de Cakoff e Renata de Almeida, "Esperando Abbas", também de Cakoff, e "Concreto", em que o cantor Caetano Veloso declama um texto do diretor da Mostra.

Caetano, aliás, é quem dá uma unidade ao filme, ao fazer sua narração e emprestar sua famosa música "Sampa", quase um hino informal da capital paulista, a dois episódios.

A canção é o centro do segmento "Alguma Coisa Acontece", da diretora e atriz portuguesa Maria de Medeiros - filmado na conhecida esquina entre as avenidas Ipiranga e São João, citada na letra. "Sampa" também encerra o último episódio, em que o alemão Wolfgang Becker busca referências nas ruas da cidade ultramoderna até encontrar uma rara loja de discos de vinil.

A arquitetura caótica de São Paulo, visivelmente, intriga os cineastas estrangeiros. Philip Noyce escolhe o marco zero da cidade, na praça da Sé, registrando uma visita de estudantes que parecem saber tão pouco quanto ele da memória paulistana.

O centro velho da capital é o cenário de "Manhã de Domingo", episódio do finlandês (radicado no Rio) Mika Kaurismaki, que acompanha o silêncio de uma manhã domingueira nos mesmos locais em que, durante a semana, se acotovelam pedestres, camelôs, carros, ônibus.

Um dos maiores nomes da Nouvelle Vague japonesa nos anos 60, Kiju Yoshida tenta um pequeno balanço intimista da imigração japonesa a partir de uma entrevista com uma garçonete nissei de um restaurante do bairro da Liberdade. A entrevista, em japonês, é realizada pela mulher do cineasta, a atriz Mariko Okada, que ouve uma discreta crítica quanto ao tratamento recebido pelos decasséguis no Japão.

SAMBA E ARQUITETURA

Um ensaio da escola de samba Vai-Vai surpreende o olhar do diretor palestino Hanna Elias em "Ensaio Geral". A colorida diversidade de uma feira livre domina o episódio "Fartura", da mexicana Mercedes Moncada e do venezuelano Franco de Peña.

O malaio Tsai Ming-Liang retorna ao tema arquitetônico, observando o cotidiano de um dos maiores cortiços verticais do centro da cidade. O israelense Amos Gitai, arquiteto de formação, analisa as semelhanças entre um aeroporto e um supermercado e o constante processo de reconstrução das metrópoles, no episódio "Modernidade".

Explorando o mesmo universo, foram menos expressivos os segmentos "Signos", de Max Lemcke (Espanha), e "Formas", do italiano Andrea Vecchiato. Uma das realizações mais bem-feitas na mesma linha é "Odisséia", de Daniela Thomas, ao acompanhar as mudanças no ambiente do viaduto popularmente conhecido como Minhocão, de dia, de noite, nos finais de semana.

O depoimento de personagens despossuídos da cidade aparece em "Esperança", em que o cineasta britânico Ash dá voz a um jovem travesti cheio de sonhos românticos, embora seu cotidiano seja a prostituição na rua.

Essa esperança é também é a tônica de "Esperando Abbas", em que Leon Cakoff reencontra um morador de rua observado, anos atrás, pelo cineasta iraniano Abbas Kiarostami ("Gosto de Cereja"), quando visitou São Paulo.

A passagem do tempo inspira os episódios "Novo Mundo", de Jim McBride e "Natureza Morta", de Cakoff e Renata de Almeida.

Uma boa seleção de fotos antigas e raras da cidade completa este fio histórico, intercalando a montagem dos episódios. A trilha sonora é de André Abujamra.

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