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Dorotéia, uma montagem responsável

Atores utilizam um alto armário como palco, num entra e sai que movimenta a cena | Lina Faria/Divulgação
Atores utilizam um alto armário como palco, num entra e sai que movimenta a cena (Foto: Lina Faria/Divulgação)
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O grotesco em Nelson Rodrigues é enfatizado na montagem de Dorotéia, Uma Farsa Irresponsável que fica em cartaz na Cia. dos Palhaços até 25 de agosto (a trupe circense apenas empresta o palco). A peça tem sangue, carecas horrorosas, chagas e um mictório. Escapar do realismo é o primeiro mérito do espetáculo, que tem direção de Mariana Zanette (veja o serviço completo no Guia Gazeta do Povo).

O cenário auxilia nesse transporte para o fantástico. Dois armários circulares e rotatórios ocupam toda a altura da sala, com nichos que guardam objetos retrô, portas, escadas e janelas pelas quais se circula a peça inteira. Dentro desses espaços, no palco e em uma escada do teatro se passa a "tragédia carioca" de três primas feias, viúvas, que um dia recebem a visita da amaldiçoada Dorotéia, a bela.

Vitimadas por uma bênção/maldição, as velhas dizem não enxergar homem algum e terem sofrido terríveis náuseas na noite de núpcias, uma herança de família passada desde a bisavó.

Exceção bonita no clã, Dorotéia chega justo no dia em que Dona Flávia (Mariana) deve casar a filha, Maria das Dores. Sentirá ela as náuseas devidas? O caso gera dúvidas, já que a garota nasceu morta.

Quando entra pela porta/armário, a Dorotéia de Ludmilla Nascarella ganha a atuação sensual da atriz, com pitadas de sangue que mancham sua anágua e em breve estão salpicando o chão.

As outras velhas, Maura (Marvhem Hd) e Carmelita (Thadeu Perone), surpreendem pela caracterização única: são três velhas neuróticas, mas cada uma tem sua personalidade. E seus modos peculiares de vivenciar a sina familiar contribuem para o desenrolar da trama

Ainda em cena está o acrobata John Salgueiro, encarnando todo o pecado que aquelas mulheres veem nos homens. Se sua presença imóvel evoca a carga mitológica da peça, suas habilidades físicas poderiam ser mais aproveitadas – em um momento ele se dependura de argolas, cabeça para baixo, sem que o movimento tenha um objetivo. Depois disso, só mais uma cambalhota.

Outra opção cênica foi pelo uso de projeções. Hoje em dia, elas abundam, correndo-se o risco de não se justificarem. Nesse caso, porém, servem para que Dona Flávia trave diálogos com a filha, que pode estar situada num segundo plano da casa ou numa outra dimensão.

Falando em tecnologia, o áudio inicial não permite a total compreensão, assim como as projeções finais não são totalmente legíveis. São firulas que não comprometem a montagem responsável de nosso maior dramaturgo. O texto foi escrito por Nelson em 1948, cinco anos depois de seu Vestido de Noiva revolucionar o teatro brasileiro.

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