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Depressão

Drogas são uma forma de “adivinhação”

Profissionais procuram aliar medicamentos à terapia falada quando outras opções não funcionam. Efeitos químicos são conhecidos, mas os efeitos terapêuticos variam

A depressão ao longo do tempo - parte 1 |
A depressão ao longo do tempo - parte 1 (Foto: )
A depressão ao longo do tempo - parte 2 |

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A depressão ao longo do tempo - parte 2

Depressão nas artes |

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Depressão nas artes

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Discutir os psicotrópicos é algo tão delicado quanto debater religião, futebol ou política. Os ânimos se exaltam, as opiniões podem ser fortes e há quem os abrace com a mesma intensidade que outros os temem.

O psicanalista Carlos Eduardo Leal se preocupa em indicar seus pacientes para médicos que tenham um olhar sobre o doente "como um sujeito e não como um organismo só biológico". "A indústria farmacêutica faz um lobby enorme sobre os antidepressivos. É a doença como forma de ganhar dinheiro, assim como se ganha com a pobreza e a falta de educação neste país", diz. Para ele, o uso dos medicamentos no tratamento da depressão se justifica quando se esgotaram outras alternativas. Um de seus receios é que eles acabam se transformando em "muletas químicas".

Em uma crônica, o psicanalista Contardo Calligaris, autor do livro Quinta-Coluna (Publifolha), diz que "os remédios inventados nas últimas décadas têm efeitos químicos definidos, mas seus efeitos terapêuticos são variáveis: misteriosamente, eles funcionam com algumas pessoas e não com outras, e cada paciente é sensível a doses diferentes".

Para o psicanalista Fabio Thá, o problema pode não estar nas drogas e, sim, na forma como elas se inserem na cultura atual. "O homem sempre buscará antídotos para o sofrimento e sempre tentará eliminar as fontes de sofrimento. Houve épocas em que outras substâncias, que hoje são vistas como drogas, eram encaradas com desembaraço", diz.

"É possível (embora improvável, nos tempos presentes) que, por meio da manipulação química, possamos localizar, controlar e eliminar o circuito de sofrimento do cérebro", escreve Andrew Solomon em O Demônio do Meio-Dia. "Espero que nunca façamos isso. Já que removê-lo significaria aplainar nossas experiências: prejudicar uma complexidade que é muito mais valiosa do que o caráter doloroso de suas partes."

"Usar qualquer substância para enfrentar o dia-a-dia passa a ser uma forma de se drogar, de fugir da realidade. Os medicamentos são importantes para o tratamento de doenças, não resolvem nossos problemas", afirma o psiquiatra Raul Carneiro Gomes Junior.

Adivinhação

Na revista Piauí deste mês, a escritora Daphne Merkin publica trechos de um diário em que fala sobre sua depressão, uma condição que enfrenta há quatro décadas. "Nenhuma das drogas funciona de maneira absoluta. Por enquanto, não dispomos de nada melhor que uma forma refinada de adivinhação", explica Daphne. "Existem cerca de 30 pílulas que atuam de forma não totalmente compreendida sobre os nossos circuitos neuronais e a produção de serotonina, norepinefrina, dopamina e outras substâncias. Ninguém, nem mesmo os psicofarmacólogos que receitam esses remédios, compreende plenamente por que funcionam, quando funcionam e deixam de funcionar."

Banalização

Renato Merolli, também psiquiatra, diz que se deve ter cuidado com o impulso que leva à medicação fácil e excessiva. "É preciso tentar conviver com a tristeza, a frustração e a dor, aprender com elas e crescer com elas. Hoje, temos uma urgência em resolver tudo muito fácil. Se estamos agitados, tomamos remédio para nos acalmarmos; se estamos tristes, temos algo para ficarmos mais felizes e assim por diante. Não é só uma ditadura da felicidade nos tempos atuais, mas do fácil e rápido", diz.

Existe um discurso razoável que parece orientar os profissionais tanto da psiquiatria quanto da psicanálise (e de outras formas de terapia): os remédios podem ajudar a lidar com uma situação, mas não resolvem o problema sozinhos. Do mesmo modo, tentar administrar uma depressão clínica sem a ajuda de medicamentos pode ser uma tarefa impossível para algumas pessoas.

Ignorância

"Não vamos fazer rodeios: Não sabemos realmente o que causa depressão. Não sabemos de fato o que constitui a depressão. Não sabemos de fato por que certos tratamentos podem ser eficazes para a depressão. Não sabemos como a depressão abriu caminho através do processo evolucionário. Não sabemos por que alguém fica deprimido com circunstâncias que não perturbam outro. Não sabemos como a vontade opera nesse contexto", escreve Andrew Solomon.

Contra um cenário desolador, marcado por dúvidas e questionamentos, Solomon diz que um deprimido precisa ouvir as pessoas que o amam. "Acredite que vale a pena viver por elas, mesmo que você não acredite nisso."

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