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John Fante

É tudo verdade: Fante em Hollywood

Do documentário mítico de Orson Welles a filmes estrelados por Jane Fonda e Kim Novak, 30 anos cheios de vida no mundo do cinema

Colin Farrell e Salma Hayek estrelam a adaptação de Pergunte ao Pó | Divulgação
Colin Farrell e Salma Hayek estrelam a adaptação de Pergunte ao Pó (Foto: Divulgação)
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Quando John Fante assinou um contrato de US$ 300 semanais para trabalhar nos estúdios da RKO em agosto de 1941, Joyce Fante estava grávida do primeiro filho. Fante ia trabalhar em parceria com Norman Foster, encarregado de escrever um episódio para o megadocumentário de Orson Welles, It’s All True. Recém-glorificado por seu filme Cidadão Kane, o garoto-prodígio de Hollywood, com 26 anos, começara a rodar outros dois filmes, Soberba e Jornada de Pavor.

Originalmente intitulado Panamerican, It’s All True era um projeto conjunto do governo brasileiro, do Comitê e Assuntos Interamericanos dos EUA (dirigido por Nelson Rockefeller) e da RKO, dentro da Política da Boa Vizinhança para fazer frente à ameaça nazista (com o ataque japonês a Pearl Harbor, em 7 de dezembro, os Estados Unidos entrariam na guerra).

Fante faria o roteiro de um episódio, "Love Story", inspirado num de seus contos autobiográficos e na história real do casamento de seus pais. Na São Francisco de 1909, o pedreiro Rocco conquista a inocente ítalo-americana Della ao dizer que construiu para ela uma casa de sonho. Quando Della descobre que é tudo mentira, já está casada e mergulhada na vida miserável com o pobre operário. Mas resolve seguir em frente, inspirada pelo amor ao marido fracassado, mas bem intencionado.

Fante e Foster também fariam o roteiro de outra história, "Meu Amigo Bonito", sobre a amizade entre um menino e um touro mexicano que, por sua bravura na arena, foi poupado da morte por aclamação dos aficionados. Welles pretendia – neste que foi chamado "um dos maiores documentários jamais filmados" – contar várias histórias dramatizadas que, na sua essência, seriam mais fato do que ficção. Mas nem tudo era verdade, a começar pela fictícia "Love Story" de Fante. Isto não era problema para o mistificador Welles, que em 1938 colocara Nova Iorque em pânico ao transmitir pelo rádio A Guerra do Mundos, de H.G. Wells, como se uma invasão de extraterrestres estivesse realmente acontecendo.

Um dos episódios principais de It’s All True se passaria no Brasil, uma celebração do carnaval. As peripécias brasileiras de Orson Welles se tornariam lendárias, incluindo a morte do jangadeiro cearense Jacaré, quando a saga dos quatro heróis que passaram dois meses perdidos no mar era reconstituída no Rio e uma manobra desastrada da lancha de filmagem jogou os quatro jangadeiros às águas de uma praia da Barra da Tijuca.

A ira da população foi o pretexto de que a RKO precisava para cancelar o projeto, que consumia cada vez mais dólares e parecia interminável. A versão de Fante para o desenlace é bem mais folclórica: Welles assistia ao espetáculo do carnaval da sacada de um prédio no centro do Rio e, aderindo aos excessos da festa, mijou sobre a multidão de foliões.

Projetos mais sólidos surgiram para Fante, que precisava garantir o leite das crianças. Em 1952, ele roteirizou Sem Pudor, um filme despretensioso de William Welman com Shelley Winters e Ricardo Montalbán. Em 1956, adaptou para a tela seu próprio romance Um Casal em Apuros, com a comediante em ascensão Judy Holliday. No ano seguinte, assinou o script de Jeane Eagels, Lágrimas de Triunfo, a cinebiografia da famosa atriz dos filmes mudos, interpretada por Kim Novak. Em 1962, fez o roteiro de dois filmes: O Santo Relutante, dirigido por Edward Dmytryk e estrelado por Maximilian Schell, sobre os milagres de São José de Cupertino, um franciscano do século 17; e Pelos Bairros do Vício, baseado no romance de outro escritor cult subestimado dos EUA, Nelson Algren, de novo sob a direção de Dmytryk, com um elenco estelar: Laurence Harvey, Capucine, Jane Fonda, Anne Baxter e Barbara Stanwyck.

No ano seguinte, roteirizou Meus Seis Amores, com Debbie Reynolds e Cliff Robertson. E, em 1968, fez o roteiro de Something for a Lonely Man, dirigido por Don Taylor e estrelado pelo astro da série de tevê Bonanza, Dan Blocker.

Adaptação

A versão cinematográfica de Pergunte ao Pó, com tentativas empreendidas pelo próprio Fante desde o início dos anos 1940, só se concretizou em 2006, sob a direção de Robert Towne. Quando fazia a pesquisa para Chinatown, de Roman Polanski, em 1974, ele leu provavelmente o mesmo exemplar da biblioteca de Los Angeles manuseado por Bukowski e se apaixonou pela história. Towne persistiu algumas décadas e lançou a versão cinematográfica de Pergunte ao Pó em 2006.

Apesar da fidelidade da adaptação, houve restrições quanto ao elenco: o irlandês Colin Farrell no papel do ítalo-americano Arturo Bandini, a glamurosa mexicana Salma Hayek no papel de Camilla Lopez. No fundo, é aquela velha escrita: livro bom não dá bom filme. Pela natureza da história, Espere a Primavera, Bandini se saiu um pouco melhor no cinema. Coprodução belgo-franco-italiana de 1898, dirigida pelo belga Dominique Deruddere, tem Joe Mantegna, Ornella Muti, Faye Dunawaye e Michael Bacall respectivamente nos papéis do pedreiro, da esposa sacrificada, da amante e de Arturo Bandini.

Pena que o próprio John Fante, roteirista competente capaz de extrair o máximo da obra de outros, não tenha podido roteirizar suas próprias histórias da saga de Arturo Bandini. A experiência de Fante em Hollywood pode ser resumida neste diálogo que teve, já numa cama de hospital, com Chares Bukowski:

FANTE: Eu trabalhava em Hollywood ao mesmo tempo que Faulkner e ele era o pior: bêbado demais para aguentar até o fim da tarde, eu o botava num táxi e despachava para casa, dia após dia. Mas, quando ele deixou Hollywood, eu fiquei. Não bebia como ele, mas devia beber mais e tomar a coragem de seguir o seu exemplo e sair daquele inferno.

BUKOWSKI: Mas você escreve tão bem quanto Faulkner...

FANTE: Fala sério?

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