Relutei muito em abandonar a sala de aula. Temendo as consequências, adiei o máximo a aposentadoria. Sempre afirmei que sentia a necessidade de me comunicar. Contar para alguém o que venho fazendo e especialmente compartilhar as minhas leituras e também me manter metódica e disciplinadamente em atividade. Porém, e é com tristeza que afirmo isso, a sala de aula se tornou um lugar difícil. Sempre tive excelentes alunos, mas ultimamente senti uma grande indiferença com relação ao conhecimento, quanto à formação e para com a própria vida, questões que para mim são indissociáveis. O aprendizado é algo apaixonante e que não permite a indiferença. Philip Roth (A Marca Humana, Companhia das Letras, 2007) me consolou: "Não sou professor de ninguém. Essa coisa de ensinar, corrigir, aconselhar, testar, abrir a cabeça disso já me aposentei".
Peço licença a um querido ex-colega de universidade, o filósofo Pedro Eloi Rech, hoje titular do interessantíssimo blog (www.blogdopedroeloi.com.br) de onde extraí o excerto acima, para, a partir desse tocante e inquietante depoimento de alguém que militou nas salas de aula por 43 anos, pensar minha própria e bem mais modesta trajetória de uma década como professor universitário. Esses foram anos cruciais para a expansão da universidade no Brasil. Desde 2002, quando comecei, também a internet passou a ser um repositório de, generalizemos, cultura que não raro coloca em xeque a atuação e a "autoridade" do professor de jovens adultos. (Com crianças e adolescentes, os desafios são outros, embora não menos fundamentais e enormes, ao contrário.)
Mas, ainda que um iniciante na profissão e, portanto, bem longe de ter acumulado a experiência de meu colega recém-aposentado, permitam-me aqui um depoimento em contraponto.
Sempre quis ser professor desde que percebi, como bom Caxias da turma, que tinha algum talento para ajudar os coleguinhas no que não entendiam; ou, antes ainda, ao ver minha mãe, professora de matemática, ajudando a salvar do desespero das "recuperações" e "segundas épocas" da vida uns quantos alunos particulares, que frequentavam minha casa e com os quais tantas vezes dividi a mesa da cozinha para fazer a lição e, ao mesmo tempo, ouvi-la ensinar.
Há alguns anos, num ciclo de palestras na universidade onde trabalho, escutei um mestre da disciplina que acabei por lecionar (não a matemática, especialidade materna, mas português!), Carlos Alberto Faraco, linguista respeitado e ex-reitor da Universidade Federal do Paraná, dizer o seguinte transcrevo o texto daquela conferência:
Nós temos, na universidade, uma tendência a dizer que não nos cabe recuperar as insuficiências dos níveis educacionais anteriores. Penso que, numa situação ideal, poderíamos até concordar com isso. No entanto, numa sociedade que sofre cronicamente com seu baixo índice de letramento, numa sociedade que não conseguiu construir ainda uma escola básica letradora, se nós na universidade não nos preocuparmos com o enfrentamento dessas insuficiências, estamos tendo pouca relevância social, estamos contribuindo pouco para rompermos o ciclo histórico do nosso atraso cultural.
Minha vida como professor, mesmo antes de ouvir as palavras de Faraco, sempre se pautou por essa preocupação em ter "relevância social" por isso, quase que instintivamente (embora a lógica me mandasse ir ensinar assuntos, por assim dizer, mais "técnicos", relacionados à experiência profissional que já acumulava como jornalista), vibrei quando fui convidado a ser professor de português, e "com liberdade para trabalhar literatura", conforme me disse o sábio coordenador de curso que me contratava. E me senti, desde então, um professor realizado.
Mas, por circunstâncias, aos poucos fui parando de trabalhar diretamente no (re)letramento de meus alunos. Ao deixar de ser "o professor de português", fácil de definir, e passar à tarefa, para mim igualmente instigante, de ensinar meus alunos a pensar com o perdão da falta de modéstia fazendo-os produzir artigos acadêmicos, voltei a me perguntar por que sou professor universitário e, ainda mais do que antes, por que aqueles meus alunos estão ali, diante de mim em aulas e orientações.
Pois, ao exigir que esses jovens pensem e escrevam, em outras palavras, sejam à minha maneira? à maneira deles? intelectuais, mesmo que por um semestre, já não fica tão claro para mim ser essa uma missão cujo valor não se discute, como aquela a que me dediquei anteriormente, a do letramento.
Sempre me perguntei e agora, especialmente, me pergunto sempre mais o quanto de desejo de uma "relação imaginária" não haveria no meu comportamento com os alunos; o quanto, especialmente numa atividade como essa de orientar produção acadêmica (por óbvio, sou alguém que gosta de pensar e exercita sua intelectualidade na medida do possível), não estou querendo que todos eles sejam como eu. Fazê-los cidadãos letrados, ainda que recuperando tardiamente sua escolaridade, nas palavras de Faraco, é uma coisa. Querer reproduzi-los à minha imagem é bem outra, e da qual pelo que me trouxe até aqui como professor pretendo fugir sempre.
Quem sabe não esteja aí a resposta à inquietação que o filósofo Pedro Eloi levou consigo ao se aposentar das salas de aula. Assim espero.



