
Stefan Collini, Professor de História Intelectual e Literatura Inglesa na Universidade de Cambridge, autor do livro What Are Universities For? (Penguin Books)
Gostaria, como questão introdutória, que o senhor respondesse à pergunta-título de seu livro: em resumo, e pensando na realidade do século 21, para que servem as universidades?
No mundo todo, as universidades mudaram muito nas últimas duas ou três décadas. Expandiram-se enormemente; foram criando mais e mais cursos nas áreas de negócios e formação profissional; e as novas tecnologias vieram para modificar a relação entre professor e aluno. No entanto, certos aspectos que definem o que é uma universidade continuam a ser vitais. Elas ainda se dedicam a ampliar e aprofundar nossa compreensão, seja do mundo natural, seja da cultura humana, e o fazem sem limites ou restrições por critérios externos ou práticos. Ainda se comprometem a levar o aluno além da mera informação, a conduzi-lo à compreensão do status da informação, de seu lugar num quadro mais amplo de conhecimento, e aos métodos disponíveis para modificar ou desafiar tal conhecimento. Laboratórios de empresas e escolas técnicas não podem fazer essas coisas. As sociedades precisam de universidades como um espaço protegido no qual novas formas de compreensão possam ser cultivadas e passadas adiante, sem que se saiba de antemão quais serão exatamente os benefícios advindos desse esforço.
Em relação ainda a esse aspecto, o senhor faz uma interessante distinção entre "conhecimento" e "compreensão". Poderia explicar a diferença?
"Conhecimento" sugere algo preto-no-branco, verdadeiro ou falso. Parece estar em algum "lugar", aonde se deve ir para "descobri-lo". Também sugere que, não importa quem vá até lá, descobrirá sempre o mesmo conhecimento. Mas "compreensão" indica algo que depende das qualidades de quem tenta compreender. Sugere que o que precisamos compreender nem sempre são, estritamente falando, "novos conhecimentos". Pode se tratar da compreensão de nos apropriarmos, de fato de algo que, em certo sentido, há muito tempo é conhecido, mas que é preciso reformular a cada geração. "Conhecimento" é apenas a matéria-prima; "compreensão" é o processo profundo e muitas vezes imprevisível pelo qual seres humanos particulares tornam seu esse conhecimento.
Outro ponto importante de sua argumentação no livro é o que opõe ou, antes, compara e distingue treinamento profissional e educação propriamente dita. Como as universidades têm lidado com essas duas metas distintas através dos tempos?
As universidades sempre combinaram elementos de educação e treinamento, desde os cursos preparatórios para alguém que serviria à igreja medieval ou à realeza até a atual formação profissional. Mas o que distingue uma escola de formação meramente técnica de uma universidade é que esta realiza o processo num contexto mais amplo de atividade intelectual: ela relativiza o conhecimento que o treinamento simplesmente transmite. A formação não faz mais do que instalar um bloco de informações no "disco rígido" do cérebro do estudante. A educação modifica a inteligência e o caráter do aluno, tornando-o mais capaz de absorver e, mais tarde, fazer uso apropriado das várias formas que toma uma informação nova.
Como as mudanças na relação professor-aluno atualmente, com um número muito maior de estudantes, ela é muito menos, digamos, "íntima" transformaram a universidade como um todo?
Mais gente significa, inevitavelmente, menos contato direto, mas as universidades sabem bem como encontrar maneiras de compensar isso variando os métodos de ensino, usando a tecnologia para proporcionar contato individual com os estudantes, e assim por diante. Professores universitários não têm de levar os alunos pela mão, e sim inspirá-los ou provocá-los a buscar formação, e um professor experiente é capaz de fazer isso mesmo com turmas maiores.
E as novas tecnologias, contribuem para esse apagamento da antiga figura do mestre experiente e sábio, já que os alunos tendem a achar que podem ser autodidatas porque têm o conhecimento todo "acessível" na internet?
Não. A web é uma selva. Grande parte da "informação" nela contida está errada ou é simplificada demais, ou ainda enganosa, em outros sentidos. E, como eu disse, o professor faz muito mais do que simplesmente transmitir "informação". As novas tecnologias podem fazer muitas coisas, e eu certamente acho que as universidades devem dar pleno uso a elas, tanto no ensino quanto na pesquisa. Mas, em última análise, o alargamento da compreensão ocorre pelo contato de uma mente com outra, seja pessoalmente, por meio impresso ou na tela, e, para o estudante que está em busca de entender melhor as coisas e expandir seus horizontes, um professor que possa apontar a direção correta e ajudar a desfazer algumas de suas confusões vale mais que mil computadores.
Uma das grandes dificuldades para se justificar a existência dessa, como o senhor mesmo define, peculiar espécie de instituição que são as universidades diz respeito a uma de suas missões: pesquisar coisas "inúteis", como no caso das chamadas humanidades. O que dizer em defesa desse tipo de disciplina?
Mudanças de todos os tipos acontecem a um ritmo acelerado nas sociedades modernas. Há uma necessidade desesperada por flexibilidade intelectual e prontidão, no que diz respeito a questões culturais, para compreender e entender as mudanças e responder a elas de forma criativa. Não podemos saber de antemão que mudanças serão essas, nem que tipo de preparação intelectual é mais vantajosa. Mas as humanidades são o registro das tentativas de autocompreensão já realizadas pela nossa espécie, e continuam a ser o meio mais poderoso para o surgimento e o estímulo de mentes flexíveis e criativas. Filosofia, história, literatura e disciplinas assemelhadas não vão morrer: mentes curiosas sempre acabarão por se dedicar a elas como parte do impulso humano por compreender mais. As disciplinas acadêmicas que estudam essas questões estabeleceram um conjunto de escritos extremamente sofisticado e sutil que precisa ser dominado, ampliado e transmitido às gerações futuras. Universidades são instituições indispensáveis nessa tarefa. O Brasil é um país que está se desenvolvendo e mudando a uma velocidade notável. Políticos e governantes podem escolher o caminho fácil e dizer que basta ter mais tecnologia aplicada e cursos de negócios. Mas não é verdade. O cultivo das humanidades nas universidades brasileiras tem um papel crucial a desempenhar na definição de que tipo de sociedade será o Brasil do século 21. Desejo a vocês boa sorte nessa empreitada!
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Leonardo Ferrari, psicanalista e professor da Universidade Positivo, onde coordena o Grupo de Estudos de Educação, Comunicação e Psicanálise
Num belo livro, Lições dos Mestres, o erudito George Steiner fala de certa dimensão, a "da troca, a de um Eros de confiança recíproca e, de fato, de amor", que seria essencial às artes de ensinar e aprender. Tal dimensão da pedagogia ainda é possível na educação dos universitários de hoje?
Em 1914, a direção do ginásio em que Freud estudou lhe pediu um escrito para comemorar o cinquentenário da escola. Ele escreveu, então, um de seus mais belos textos, chamado "Sobre a Psicologia do Colegial" (presente no volume 11 de suas obras completas na nova edição da Companhia das Letras). Nele, Freud conta seu reencontro, adulto, com um antigo professor, pelas ruas da cidade. Desse encontro resulta uma questão fundamental: o que vale mais na relação entre aluno e professor, nessa relação transferencial? A ciência transmitida, o conhecimento repassado, o saber, ou a personalidade do professor que, de algum jeito, marcou a vida do aluno? Freud vai responder de um modo inquietante: o encontro de um professor com um aluno e vice-versa não é nunca um primeiro encontro; é um reencontro. Por isso os inevitáveis mal-entendidos, confusões e trapalhadas que podem acontecer.
Como fica a relação professor-aluno atualmente: com um número muito maior de estudantes, ela não é muito menos, digamos, "íntima"?
Um professor não é só professor para um aluno e um aluno não é só um aluno para um professor. É como se nessa relação aparentemente a dois, estivessem quatro, cinco, seis outras pessoas foi o que Freud denominou de "condensação" em sua análise dos sonhos. Ora, aqui já se pode evidenciar que, se há amor nesse relacionamento entre professor e aluno, certamente não é o amor imaginário, o amor no sentido ingênuo, a dois, romântico esse que acaba virando tema de curso para ensinar os professores a serem mais amorosos em sala de aula. É, sim, o amor de transferência. Poderá ou não ser construído, pois não depende só da vontade ou da preparação de ambos, mas também do inconsciente de cada um. Ou seja, ele não é automático, não está dado em uma lista de nomes denominada "turma", tampouco em uma nota ou conceito de avaliação.
Esse é também o tema de O Banquete, de Platão, dileto discípulo de Sócrates.
No Banquete de Platão, há um general, Alcebíades, que no auge da vida está interessado em alguém que não lhe quer do jeito que ele gostaria, o feiíssimo Sócrates. Como entender esse desencontro? Para descrever o estranho fascínio que Sócrates exerce sobre ele, Alcebíades usa a metáfora de uma estátua horrível, chamada pelos gregos de "sileno", que, quando aberta ao meio, revela um "agalma", objeto precioso. Eis aí o amor de transferência em ação: Alcebíades ama o que há em Sócrates e não Sócrates. Ama a voz de Sócrates, o olhar de Sócrates, mas não a pessoa de Sócrates, nem sua personalidade. O que lhe fascina é esse objeto precioso, esse não sei bem o quê que lhe acelera o coração, o faz caminhar mais devagar, o faz escutar com muita atenção, o faz se encantar. Alcebíades reconhece que com todos os outros não acontece nada parecido. Freud, em seu clássico O Mal-Estar na Civilização, diz que a educação passa boa parte da vida ensinando o aluno a saber viver nos lagos italianos e, de repente, quando ele pisa fora da escola, depara-se com vinte graus negativos em pleno Polo Norte, e não nos lagos italianos. Esta é a questão que Freud traz para as universidades: vocês pensam em ensinar e aprender sem levar em conta o inconsciente? Pretendem ficar com a estátua horrível jogando fora o objeto precioso?
Uma distinção importante recorrendo aqui a um dos autores da sua especialidade, Jacques Lacan é a que opõe uma relação professor-aluno "imaginária", talvez por demais idealizada de parte a parte, a outro tipo de relação, a do "simbólico", em tese mais produtiva. Poderia explicar como, na prática, elas se dão?
Lacan pensa a vida humana não no sentido de "zoé", a vida comum dos animais e dos homens, mas de "biós", que indica a vida própria de um indivíduo ou de um grupo. Essa distinção é de um outro pensador genial chamado Giorgio Agamben. Lacan fala de três registros fundamentais: o Real, o Simbólico e o Imaginário. Na prática, isso significa o quê? Significa que viver no Imaginário é viver desenhando mapas de lagos italianos, decorando a localização de cada lago, fazendo prova sobre eles, desconsiderando o Real do desejo que anima cada um dos alunos ali presentes um desejo singular, não coletivizável: para um, viver no Saara; para outro, a paixão pelo gelo. Por que estes desejantes, agrupados pela universidade sob o nome de "turma", devem estudar as mesmas coisas, ou seja, os lagos italianos? Por isso Lacan também verifica a existência do Simbólico, ou seja, a possibilidade de se organizar de outra forma, de outro jeito, levando em consideração o Real do desejo. Porém, a psicanálise não propõe a abolição do Imaginário, caso contrário acabaria a vida em sociedade. O Imaginário é fundamental, mas não da forma como em geral ele se apresenta, fixo, imutável, inflexível.
E as novas tecnologias, como contribuem para essas mudanças na relação professor-aluno, já que os estudantes tendem a achar que podem ser autodidatas porque têm o conhecimento todo "acessível" na internet?
Eu acho que essas propaladas "mudanças" não são bem o que pretendem ser. Há um gosto enorme em julgar nossa época como "única", "pós-moderna", "avançada" porque a cada cinco minutos um novo objeto portátil tecnológico aparece trazendo "extraordinárias" novidades. Então, se fala muito em iPad, iPhone, como se no tempo do meu pai e do meu avô não existisse a iPandorga, o iEstilingue, o iGibi, a iFigurinha, que fazia esses "excelentes" alunos aproveitarem qualquer momento para faltar aula, sair mais cedo, não aguentar os ideais que lhes tentavam passar goela abaixo. Quando perguntados sobre a escola, do que essa velha geração se lembra? Da pinta engraçada na perna daquela professora e do grito tresloucado do ridículo professor de educação física. Há um mal-estar dentro das universidades que não se trata com "melhores" aulas (o discurso das competências) ou com "melhores" tecnologias (o discurso da ciência), nem com a demissão e substituição sistemática de professores como se eles fossem parafusos (o discurso do capitalismo selvagem). O mal-estar se chama sujeito do inconsciente, ou seja, aquilo que a ciência não quer saber, porém está lá, incomoda, é a pedra no meio do caminho do cientista, é o que não deixa marcas no tubo de ensaio, que não é visível no tomógrafo computadorizado.



