
A representação do corpo nas narrativas de autoria feminina passou a me interessar quando me dei conta da enorme importância que o corpo vem assumindo nos vários campos do conhecimento. Mais do que isso, foi o fato de que notei diferenças significativas entre as várias representações, ocorridas em textos do início do século 19 até hoje. Note-se que estou me referindo a corpos femininos em obras, contos e romances de autoria feminina. Essa diversidade de representações me levou a criar uma tipologia com dez diferentes tipos de corpos invisível, disciplinado, imobilizado, subalterno, envelhecido, degradado, refletido, violento, erotizado e liberado da qual destaco este último, o mais auspicioso para comemorar o Dia Internacional da Mulher.
Quais seriam as características desse corpo liberado? Trata-se de um corpo em constante formação, num processo de expressiva recriação do mundo do qual faz parte. Típico da pós-modernidade, ele recusa uma identidade fixa, investindo na mobilidade identitária, admitindo a ambivalência como parte do processo libertário.
A protagonista de Divã, originalmente peça de teatro de autoria de Martha Medeiros, depois livro e, agora, sendo lançado em filme com a mesma Lília Cabral da encenação dramática, vive uma crise de identidade que a leva ao analista. Ela se considera muitas e tem dificuldade de lidar com esta pluralidade, mas também não aceita a acomodação a um modelo tradicional: "se ser feliz para sempre é aceitar com resignação católica o pão nosso de cada dia e sentir-se imune a todas as tentações, então é deste paraíso que quero fugir". Depois de três anos de terapia, aceita sua pluralidade, e a última cena teatral apresenta a protagonista ofertando ao médico um quadro pintado por ela, onde se vê um enorme pássaro voando. Enfim, a liberdade conquistada. O romance termina também com ela se despedindo do analista: "Lopes, você já quis me dar alta e eu recusei, achava que não estava pronta. Agora entendo que nunca estarei pronta, e que tudo o que preciso é conviver bem com meu desalinho e inconstância, que enfim aceito."
Nora, protagonista de A Sentinela, romance de Lya Luft, passa pelo mesmo processo. No presente da narrativa é uma mulher centrada, que inaugura uma tecelagem, agora decidida a dirigir sua vida, como ela mesma diz: "Estou bem, como se retivesse nas mãos as rédeas de mim, observando sem espanto os trechos a percorrer." Mas este é o resultado final de um processo de autoconhecimento que ocupa toda narrativa. Ao final, ela se encontra segura de si, aberta ao imprevisto, à Vida (com V maiúsculo). Ao exorcizar um passado doloroso, ela se liberta das amarras familiares e das dependências afetivas, ousando viver, sem repressões e sem medo, a existência com seus mistérios. Então se põe a cantar da janela do seu quarto, "jorrando fios de música sobre as coisas todas", construindo assim uma nova postura diante da vida, em que o corpo é como o "mar" com seus mistérios, mas é também "viagem" aberta ao desconhecido. Enfim, um corpo liberado.
No conto "O Triângulo Mais Que Perfeito", do livro Os Provisórios, de Helena Parente Cunha, encontramos uma protagonista que se transforma, também, num corpo liberado. Temos aí, inicialmente, uma família patriarcal formada pela mãe/esposa, o pai e a filha, modelo que se desintegra com o adultério paterno. O ponto de vista, apesar de o conto ser narrado em terceira pessoa, é sempre o da mãe que vai percebendo o gradual afastamento do marido "ele cada vez mais indo" , mas se sente impotente para retê-lo. Na realidade, tudo gira em torno da sexualidade feminina, pois como esposa, ela é sexualmente reprimida, não sentindo prazer nas relações com o marido. Diz ela: "minha carne sempre teve medo de acolher o transbordamento quente do esperma". O sexo, como um ato sujo, faz parte do condicionamento sócio-cultural, que constrói a esposa unicamente para a reprodução. O conto narra o processo de libertação deste corpo reprimido. A esposa, depois de abandonada pelo marido, passado algum tempo, é procurada por ele e se torna sua amante. Antes, ela fingia que tinha prazer; depois, como amante, "o bom do esperma dele no meu orgasmo".
O discurso poético expressa, de forma criativa, o processo de mutação, ao explorar, fonética e semanticamente, o gerúndio dos verbos "ir" e "vir", numa clara referência à passagem do tempo, enquanto se processa a transformação. No final, "o gesto lento e digno de quem está acima e além dos mesquinhos preconceitos e dos desmesurados assomos de emancipação. Acima e além." Note-se que este corpo não está apenas distante dos preconceitos, mas também dos "desmesurados assomos de emancipação", o que significa centrado, equilibrado, liberado enfim.
Agora, para terminar, uma provocação: quando o corpo liberado for um tipo dominante, não só na ficção, mas também na realidade social, haverá ainda necessidade do Dia Internacional da Mulher?
Elódia Xavier é professora de Literatura Brasileira da UFRJ, com pós-doutorado em Psicologia Social na USP. Autora de ensaios e livros, sendo o último, Que Corpo É Esse?, publicado pela Editora Mulheres.



