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Anna Bella é uma Gioconda carioca em “Mona Lisa com Morro de Santo Amaro”, de 2003-2008 | Jeferson Pancieri
Anna Bella é uma Gioconda carioca em “Mona Lisa com Morro de Santo Amaro”, de 2003-2008| Foto: Jeferson Pancieri

Perfil

Saiba mais sobre a artista carioca Anna Bella Geiger (Rio de Janeiro, 1933)

Múltiplos talentos

Anna Bella é escultora, pintora, gravadora, desenhista, artista intermídia e professora. Com formação em língua e literatura anglo-germânicas, inicia, na década de 1950, seus estudos artísticos no ateliê de Fayga Ostrower (1920 - 2001).

NY

Em 1954, vai viver em Nova York, onde freqüenta as aulas de história da arte com Hannah Levy, no Metropolitan Museum of Art. Retorna ao Brasil no ano seguinte.

Gravura

Entre 1960 e 1965, participa do ateliê de gravura em metal do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro – MAM/RJ, onde passa a lecionar três anos mais tarde.

Universidade de Columbia

Em 1969, novamente em Nova York, ministra aulas na Columbia University. Volta ao Rio de Janeiro em 1970 e, em 1982, recebe bolsa da John Simon Guggenheim Memorial Foundation, em Nova York.

Bienais

Participou de inúmeras mostras internacionais e das Bienais de São Paulo, Veneza e da 5éme Bienalle de Photographie, na Bélgica.

Mundo arte

Suas obras fazem parte de várias coleções particulares e de acervos de museus como o MoMA de NY, a FOGG Collection-Harvard, a GETTY Fundation em Los Angeles, o Beaubourg (Pompidou) em Paris, o Victoria & Albert Museum em Londres, o Museu Reina Sofia em Madrid, entre outros.

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Em 2003, a curadoria da Bienal de Londres pediu à artista Anna Bella Geiger, de 76 anos, um autorretrato diante de algum monumento brasileiro. Moradora do Rio de Janeiro, o melhor cartão postal brasileiro, não lhe faltariam opções: havia o Cristo Re­­dentor, o Pão de Açúcar, as praias. Preferiu a favela – que, afinal, virou atração turística há algum tempo.

Anna Bella posa como Gio­­conda em "Mona Lisa com Morro de Santo Amaro", obra que figura entre as 50 selecionadas pelo curador Adolfo Montejo Navas para a exposição Fotografia Além da Fotografia, em cartaz na galeria da Caixa Cultural Curitiba até 21 de fevereiro. A "ironia duchampiana", como descreve a própria Anna Bella, é uma das obras mais atuais da retrospectiva desta artista que, desde a década de 1970, é conhecida pelo uso de diversas linguagens e a exploração de novos materiais e suportes.

Retrospectiva, sim, mas com um recorte específico. Ao curador interessa revelar o alto grau de presença de elementos fotográficos na produção da artista de 1975 a 2008. "O objetivo desta fotografia é sua conversão em objeto, em outro tipo de assemblage visual, com a migração da matéria-prima da imagem para outra forma", explica.

Anna Bella não é fotógrafa. Usa imagens que não são necessariamente suas. "Mas a direção é minha, penso-as dentro de uma ideia, de um conceito", conta. Assim, uma fotografia pouco conhecida de Man Ray é transformada em objeto em "Après Man Ray", de 2007. A peça é um móvel de antiquário, cujo tampo com a imagem aplicada é decorado com conchas e pequenos biscuits de corpos femininos garimpados na França.

A alusão ao surrealismo tem a ver com a identificação da artista, não pela ideologia, mas pela postura dadaísta. "Eram artistas experimentais, que não tinham interesse em criar uma obra que se cristalize", diz. Na instalação "Rose Sèlavy Mesmo" (1997-2008), ela insere uma figura duchampiana no lugar das fotografias de jornais recolhidos em todo o mundo, conferindo novos significados às informações da página. "É um trabalho que nunca termina", explica.

Territórios

A experimentação teve início nos anos 1970, quando Anna Bella, já reconhecida como exímia gravadora, e também desenhista e pintora, começa a inserir imagens fotográficas em seus trabalhos para tratar de questões relacionadas à realidade. "Queria falar de territórios em um momento de exceção política (a ditadura militar), mas ao mesmo tempo busquei um resultado de ordem estética", diz Anna Bella, que caminhava em um terreno desconhecido para ela e outros artistas, até então, abstracionistas.

A exposição começa com obras deste período, em que as gravuras se misturam a imagens como na série Polaridades (1973-74), em que a artista utiliza fotografias pouco divulgadas (na época) da Lua. A partir de então, a questão dos territórios, da topografia, será aprofundada com o uso de mapas que servem de instrumento para tratar de temas antagônicas como a periferia e o centro. É o caso de "O Pão Nosso de Cada Dia" (1978), formada por um saco de pão e seis cartões postais com imagens que mostram o mapa do Brasil recortado em um pão de forma.

Mas a fotografia também se torna material poético em obras como "Passagens", de 1975, uma fotomontagem formada por inúmeros fotogramas da artista caminhando pelo metrô de Nova York. "Me interessa esta possibilidade de contar uma pequena história", diz Anna Bella.

Da década de 90 em diante, as imagens se ligam a objetos, colagens, vídeos e instalações. Na série Flumenpont (2001-2005), já não interessa refletir sobre a questão dos territórios, embora a geografia ainda se apresente. Sobre uma fotografia da ponte do Brooklyn, com grades que lembram teias, Anna Bella desenhou uma aranha ligada a uma bola natalina azul que escorre sobre a tela. A inspiração tem, é claro, relação com um acontecimento de relevância mundial. "Pensei na imagem do atentado às Torres Gêmeas como algo que se desfazia", conta.

A fotografia na obra de Anna Bella parece ser um instrumento de relação com o mundo, com à realidade ao seu redor. "Ser artista é ser político, não no sentido panfletário, mas de apreender o mundo e de oferecer ao público várias leituras possíveis sobre ele", diz.

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