i

O Sua Leitura indica o quanto você está informado sobre um determinado assunto de acordo com a profundidade e contextualização dos conteúdos que você lê. Nosso time de editores credita 20, 40, 60, 80 ou 100 pontos a cada conteúdo – aqueles que mais ajudam na compreensão do momento do país recebem mais pontos. Ao longo do tempo, essa pontuação vai sendo reduzida, já que conteúdos mais novos tendem a ser também mais relevantes na compreensão do noticiário. Assim, a sua pontuação nesse sistema é dinâmica: aumenta quando você lê e diminui quando você deixa de se informar. Neste momento a pontuação está sendo feita somente em conteúdos relacionados ao governo federal.

Fechar
A matéria que você está lendo agora+0
Informação faz parte do exercício da cidadania. Aqui você vê quanto está bem informado sobre o que acontece no governo federal.
Que tal saber mais sobre esse assunto?
cartas de portugal

Escrever com a mão esquerda

  • PorMiguel Sanches Neto
  • 04/04/2016 17:16
 | Miguel Nicolau/Especial para a Gazeta do Povo
| Foto: Miguel Nicolau/Especial para a Gazeta do Povo

Assim como a crônica é o gênero brasileiro por excelência, a poesia é o prato à moda da casa em Portugal. Não se trata apenas de uma extensa produção lírica. Escrever poesia é um exercício de identidade, o que permitiu que um país pequeno erguesse verdadeiras metrópoles líricas que levam os nomes de Camões e Fernando Pessoa. Há um contínuo de ótimos poetas desde a idade média até os dias atuais.

Na contemporaneidade, a linha predominante é o surrealismo, matriz que agrega autores diferentes. Nenhum deles mais importante do que Herberto Helder (Lisboa, 1930 – Cascais, 2015), um autoexilado em si mesmo, em um estilo que não se entrega facilmente ao leitor.

Postumamente saíram seus últimos versos, um volume curto, em que a imagem do poeta gauche é reforçada: Poemas canhotos (Porto, 2015). Seus livros não se alteram de um título para outro, formando um rio-corrente, um grande discurso fragmentado, desconcertante e em grande medida enigmático. Estas peças derradeiras continuam a cifrar o descompasso entre os dois planos, o da idealidade e o da condição humana, como se lê no primeiro dístico da coletânea:

“a amada nas altas montanhas

o amador ao rés das águas.” (p.7)

A expressão “rés do chão” é bastante corriqueira aqui por designar o apartamento térreo nos prédios. O poeta muda “chão” por “água”, o elemento sólido e estável pelo líquido e traiçoeiro, numa alusão ao estado de falência e fragilidade do ser humano, que será continuamente arrastado para o fundo, vendo cada vez mais inalcançável o objeto de seu fascínio (o feminino como símbolo de tudo aquilo que nos move). A linguagem não é uma forma de conquistar o que está além, mas a expressão de nossa falência, de nossa inviabilidade, de nossa habitação na morte, ocupando uma situação de contrariedade em relação ao mundo fútil e tributável:

“sais

ao encontro de outras palavras poucas

...

como quem diz: a multidão de palavras

todas elas esquerdas como se escreve” (p.15)

É esta postura canhota que move o poeta que não pactuou com as ilusões dos modelos tradicionais de poesia ou de nomeada, preferindo sabotar os projetos de realização pessoal. Herberto busca um verbo às avessas, gatilho de estranhamentos que denunciam a monstruosidade da existência. Em versos longos, graficamente dissonantes na página e contrários às construções de sentidos, ele atira palavras contra os vendilhões do templo.

O centro de Poemas canhotos é justamente um texto sobre um poeta/escritor que imita Rimbaud e vive faminto de fama, surrupiando todas as recompensas – uma figura fácil na literatura contemporânea:

“aprontem aí um Nobel para salvar uma vida / ¿um Nobel está bem mas enquanto espera / porque não arranja vá lá um Cervantes um Camões uma coisa dessas? / porra deem-lhe tudo: um reinado, uma dinastia inteira se é tão sôfrego assim, / melhor à cautela dar-lhe o mundo inteiro / e sem repartir com ninguém” (p.31)

Escrever canhotamente é se opor a esta poética direcionada ao sucesso. Que sua obra não nos deixe descansar em paz na linguagem.

Deixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros
Máximo de 700 caracteres [0]

Receba Nossas Notícias

Receba nossas newsletters

Ao se cadastrar em nossas newsletters, você concorda com os nossos Termos de Uso.

Receba nossas notícias no celular

WhatsApp: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.

Comentários [ 0 ]

O conteúdo do comentário é de responsabilidade do autor da mensagem. Consulte a nossa página de Dúvidas Frequentes e Política de Privacidade.