Como você se sentiu com essa matéria?

  • Carregando...
Rachel de Queiroz, no dia 4 de agosto de 1977, durante a sua posse na Academia Brasileira de Letras | Acervo ABL/Divulgação
Rachel de Queiroz, no dia 4 de agosto de 1977, durante a sua posse na Academia Brasileira de Letras| Foto: Acervo ABL/Divulgação

Perfil - Ela e a política

O escritor, jornalista e advogado Murilo Melo Filho, integrante da Academia Brasileira de Letras (ABL), conviveu com Rachel de Queiroz e conta que a escritora dizia não gostar dos livros que escrevia. "A escritora era muito crítica, principalmente com os seus próprios livros", diz Melo Filho, que também lembra que Rachel não apreciava sessões de autógrafos. "Ela escrevia um livro e parecia que já começava a planejar a próxima obra. Portanto, não queria ficar ‘badalando’ um texto finalizado", diz o acadêmico.

Melo Filho menciona os flertes que a autora teve com a política. Na década de 1930, ela ingressou e saiu do Partido Comunista e, posteriormente, estabeleceu relações com os trotskistas. Foi presa, em 1937, acusada de "ser comunista". Em 1964, declarou apoio à ditadura militar, o que fez com que muitos autores e estudiosos torcessem o nariz para a autora e a sua obra.

Ela foi convidada pelos presidentes Jânio Quadros e Castelo Branco para assumir o então Ministério da Educação e Cultura, mas recuou. "A Rachel dizia que uma professorinha, como ela, não poderia ser ministra", conta Melo Filho. Rumores dão conta de que ela teria tido um affair com o presidente Castelo Branco. Rachel foi casada com José Auto da Cruz Oliveira e também viveu com o médico Oyama de Macedo.

Obras

Conheça algumas das obras de Rachel de Queiroz (1910-2003), filha de Daniel de Queiroz Lima e Clotilde Franklin de Queiroz, descendente do escritor José de Alencar:

Livros

O Quinze (romance, 1930), João Miguel (romance, 1932), Dora, Doralina (romance, 1975), Memorial de Maria Moura (romance, 1992), adaptado para uma minissérie exibida pela Rede Globo em 1994.

Traduções

A Mulher de Trinta Anos, de Honoré de Balzac; Os Demônios, de Fiódor Dostoiévski; A Mulher Diabólica, de Agatha Christie e O Lobo do Mar, de Jack London, entre outros.

Infantil

A Editora Saraiva está publicando, em comemoração ao centenário da escritora, os livros infantis que ela escreveu, entre os quais O Menino Mágico, Cafute & Pena-de-Prata e Andira.

Inédito

O Instituto Moreira Salles surpreende e lança Mandacaru, livro de poemas inédito, de 160 páginas e preço de R$ 36. Esse conteúdo permanecia inédito até ser descoberta no Fundo Rachel de Queiroz do IMS. Os poemas são acompanhados de fac-símiles dos manuscritos.

Rachel de Queiroz, que tem seu centenário de nascimento comemorado na próxima quarta-feira, dia 17, escreveu o seu nome na história da literatura brasileira por vários motivos. A começar pelo fato de ela ter publicado, com apenas 19 anos, o seu primeiro livro, O Quinze, de 1930, considerado até hoje um dos clássicos da prosa nacional. Ela apareceu em meio ao chamado grupo do "romance de 30", do qual fazem parte autores como Graciliano Ramos, José Lins do Rego e Jorge Amado.

A escritora transitou por vários gêneros, da crônica ao teatro, in­­cluindo narrativa infantil. No dia 4 de agosto de 1977, ela foi eleita para a cadeira de número 5 da Academia Brasileira de Letras (ABL), tendo disputado a eleição com Pontes de Mi­­randa. O feito permitiu que, posteriormente, outras seis mulheres viessem a ingressar no time dos imortais das letras brasileiras.

No Ceará, estado onde a escritora nasceu, 2010 é todo comemorações. Lá, foi instituído o Ano Rachel de Queiroz. A Bienal Internacional do Livro, realizada em Fortaleza, teve como tema a obra de Rachel. As universidades locais têm promovido ciclos de debates sobre o projeto estético da autora.

A professora da Universidade Federal do Ceará (UFC) Fernanda Coutinho vai ministrar, a partir de dezembro, um curso sobre Rachel em Colônia, na Alemanha. "Sua obra, mesmo guardando um sabor de nordestinidade, vai além do que se poderia chamar regionalismo, pois seus personagens vivem dramas que são os das personagens marcantes de tempos e lugares diversos", afirma Fernanda.

A professora da UFC observa que, nos livros de Rachel, em especial em O Quinze, além do caráter mo­­derno da linguagem, e do localismo na temática, é possível acrescentar um sentido de vigilância da escritora com relação às incongruências do poder, o que redunda na literatura voltada para a crítica social. "Mas Rachel vai além disso, porque a própria condição de existência digna para a mulher, como agente de seu próprio destino, é discutida. A opção pelo trabalho, em vez de simplesmente capitular diante da convencionalidade do papel de mulher casada, é algo marcante na obra dela", afirma.

Rachel tratou de diversos assuntos: a seca, a passagem do tempo, a morte, o banditismo, as lutas políticas de cunho ideológico, o Nordeste, seus tipos e hábitos. "Rachel foi uma escritora da vida inteira: uma pessoa devotada a seu ofício, concomitante, de feiticeira e de domadora das palavras", define a professora da UFC. A autora tinha um pé no mundo letrado, mas fazia questão de estabelecer pontos de contato com as raízes nordestinas. Mesmo com residência no Rio de Janeiro, costumava passar alguns meses em sua fazenda, chamada Não-me-deixes, em Quixadá, no Ceará.

"A fazenda Não-me-deixes re­­presentava um pedaço da alma de Rachel. Ela gostava de estar lá para levar a vida simples de sertaneja, sentindo o tempo passar mais de­­vagar, entretendo-se com a culinária de que foi exímia praticante, e, principalmente, ouvindo as pessoas falarem de suas vidas: os tropeços, as surpresas, o nunca aprender de tudo a viver", finaliza Fernanda.

Deixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros
Máximo de 700 caracteres [0]