Entrevista com a professora de Antropologia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Mônica Dias
A professora de Antropologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Mônica Dias nota uma mudança nos terreiros de umbanda. De acordo com ela, se no passado a classe econômica menos favorecida era maioria, hoje as classes média e alta formam a maior parte dos freqüentadores dos terreiros em todo o Brasil. A especialista, em entrevista exclusiva à Gazeta do Povo, fala a respeito dos pontos de contato da umbanda com o catolicismo e o kardecismo, além de comentar sobre o que leva algumas pessoas a procurá-la e outras, a alimentar preconceito contra a religião.
Gazeta do Povo Há quem diga que a umbanda é a religião mais brasileira, uma vez que ela tem uma capacidade de incorporar elementos de variadas crenças. Qual a sua opinião sobre isso?
Mônica Dias Se for nesse sentido, a umbanda é sim a religião mais brasileira. Afinal, a umbanda é extremamente plástica, absorve devoções e ritos variados e, por isso, atrai fiéis. A umbanda é baseada no catolicismo, no kardecismo, além de incluir culto aos antepassados de índios, escravos e crianças.
Quais os pontos de contato da umbanda com o catolicismo?
Os escravos fizeram o sincretismo e, com isso, passaram a chamar de outros nomes alguns santos católicos.
E de que maneira a umbanda se aproxima do kardecismo?
A idéia de um mundo invisível é similar, e também a idéia do karma, da evolução, de que há dívidas a serem pagas na Terra.
O que as pessoas buscam na umbanda?
Há até um chavão a respeito disso: "Se não vem por amor, vem pela dor." As pessoas enxergam um terreiro de umbanda como espaço de cura, seja do amor ou das finanças. Muita gente acredita que, quando há um problema, seja de amor ou de dinheiro, então é preciso resolver o problema no plano espiritual para que a situação melhore no plano material. É o famoso pensamento mágico segundo o qual um plano interfere no outro. Algumas pessoas, uma vez resolvido o problema, abandonam a umbanda. Mas, naturalmente, há quem permaneça. E, obviamente, há quem vá na umbanda por outros motivos.
O que leva algumas pessoas a alimentar preconceito em relação à umbanda?
Perceba que uma das origens da umbanda é o kardecismo. O kadercismo foi absorvido. Só no Brasil, veja só, o kardecismo é religião. Mas a umbanda não é considerada religião, apesar de ser uma religião. Há, no imaginário brasileiro, uma idéia de que o que é da África é sinônimo de maligno. Mas esse preconceito não passa de ignorância.
O centenário da umbanda, a ser comemorado em novembro, pode vir a despertar mais interesse pela religião?
Em cem anos, a umbanda se transformou. Por exemplo, no início, a classe econômica mais baixa freqüentava, majoritariamente, os terreiros. Hoje, basta olhar a quantidade de carros importados nos estacionamentos dos terreiros para perceber que as classes média e alta aderiram à religião. Hoje, muitos pobres, por exemplo, freqüentam religiões evangélicas.



