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Literatura luso-africana

Excelência ficcional

As obras do autor moçambicano Mia Couto revelam aspectos da vida e da própria literatura africana em língua portuguesa

O consagrado escritor moçambicano Mia Couto: do jornalismo à vida de biólogo | DivulgaçãoArquivo
O consagrado escritor moçambicano Mia Couto: do jornalismo à vida de biólogo (Foto: DivulgaçãoArquivo)
Veja quatro autores, com quatro instigantes vozes da literatura luso-africana |

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Veja quatro autores, com quatro instigantes vozes da literatura luso-africana

Um dos candidatos a possível "livro do ano" é o romance Venenos de Deus, Remédios do Diabo, do moçambicano Mia Couto. Adjetivos, por mais que fossem pinçados, seriam poucos para dar conta, em um breve espaço de jornal, de todas as camadas que uma obra que, por meio da problematização literária, reconstrói um país esfaçelado após sucessivos conflitos e recupera mitos pretéritos de uma África subjetiva. No entanto, o que se destaca é a costura feita por meio de um exímio trabalho de linguagem.

A obra, entre outras qualidades, se faz por uma seqüência de frases despretensiosamente certeiras. Ao acaso, é possível citar: "Aquela casa era a sua nação. As dimensões dessa nação não cabiam em mapa métrico. Todos sabem: a casa só é nossa quando é maior que o mundo." Ou então: "Viver é um verbo sem passado." E mesmo: "A punição maior é o purgatório eterno." Há, também, os diálogos, em que, mais do que reproduzir uma possível oralidade, Couto faz "música": "Posso perguntar-lhe uma coisa? Por que razão vocês passaram a dormir separados?/ A vida é um rio, Doutor: a água junta e separa./ Você é feliz, Dona Munda?/ Não é que seja infeliz. Eu não sou é feliz."

Irradiar

Ler Mia Couto, não apenas este mais recente e primoroso romance, é mergulhar em uma possibilidade ímpar de literatura, casualmente africana, evidentemente universal. Em sua obra em progresso, seja O Outro Pé da Sereia, O Último Vôo do Flamingo, A Varanda de Frangipani, entre tantos, há aspectos, os mais peculiares possíveis, que colocam o leitor frente a frente com o que se pode chamar de excelência em meio à literatura africana de expressão em português.

A tal oralidade – característica acentuada em países como Moçambique e Angola, em que os índices de leitura são baixíssimos – é recuperada na ficção coutiana, mas (evidentemente) não se trata de transcrição da fala.

Um apurado ouvido musical, em tese, pode ajudar, mas é o que chamam de talento, experiência e/ou capacidade (do autor) que imprime sonoridades interessantíssimas ao texto escrito, a exemplo do que também se constata em um fragmento aleatório do romance O Último Vôo do Flamingo: "Sabe onde é a minha verdadeira igreja? Sabe? É junto ao rio, lá no meio dos caniços."

Se, como reza a lenda, a cada quilômetro quadrado africano há uma maneira de se comunicar, dialetos vários, idiomas paralelos que se sobrepõem às línguas oficiais, Couto – ouvidos atentos – capta essa música babélica, reprocessa e oferece uma opção escrita inédita. A professora de Teoria da Literatura da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) Maria Luiza Ritzel Remédios e o jornalista especializado em literatura e editor-assistente do Caderno 2, do jornal O Estado de S.Paulo, Ubiratan Brasil comungam desse ponto de vista.

Há uma outra idéia-força que tanto Brasil quanto Maria Luíza endossam conjuntamente a respeito da ficção de Couto: a recuperação de mitos e lendas do imaginário africano. No romance O Último Vôo do Flamingo, o autor foca a origem do pôr-do-sol, que teria surgido durante o mergulho derradeiro da ave citada no título e que, desde então, se repete todo dia antes do anoitecer. "São fábulas sobre a realidade ou folclore africanos", afirma Ubiratan Brasil. "Mia Couto recupera as raízes e as apresenta com dicção inédita", completa Maria Luiza.

Sonho libertador

A teia ficcional elaborada por Couto se faz ainda por incursões que enovelam espíritos e almas, fantásticos seres sombrios, representantes que são de universos cósmicos e mesmo da mais palpável realidade real via alucinações e sonhos. Por trás disso, sinais de que os personagens, por mais assombrados que venham a ser, têm na terra o elemento construtor de sua identidade – mesmo que a terra seja arrasada por buracos de bombas de guerras sem fim.

"Mia Couto desenvolve o seu projeto de moçambicanidade dentro da perspectiva de resgate e reafirmação da cultura tradicional, o desvendamento da identidade de um país esquecido de si devido aos mecanismos impostos pelo curso da História, pelo colonialismo, pela guerra e pela a tentativa de despertá-lo do desatento abandono de si". A afirmação, apesar de longa, chega repleta de coerência e é de autoria da professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Jane Tutikian.

Esse trânsito pelo passado, com estadas no mágico e no sonho, aponta para uma questão, a mais séria possível: tal "delírio", em vez de alienar, é indispensável para a compreensão da realidade. "No caso de Mia Couto, o sonho, ao invés de ser alienante, convida à reflexão", diz a professora Maria Teresa Salgado, da UFRJ. Ela ainda acrescenta que a ironia e o riso na obra de Couto podem ser interpretados como pontes de escape de um cotidiano africano, na maioria do tempo, sufocante.

O que se diz, pensa e reflete a respeito de Couto, apesar de não ser algo generalizado aos demais autores luso-africanos, deflagra uma compreensão a respeito das pulsões de um continente tido e visto como majoritariamente negro, agora traduzido literariamente sobretudo por vozes, a exemplo de Mia Couto, brancas.

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"Suacelência sofria de inconfessável inveja de um passado que não lhe abria nenhuma porta. Pois vivia um presente em que, apesar da farda, ele não era porteiro de nada.

– Saudade do colonialismo coisa nenhuma! Eu tenho saudade é de mim mesmo, saudade de Deolinda, minha filha... Diga-me uma coisa: você nunca chegou a conhecer minha filha Deolinda?

– Nunca – mentiu Sidónio.

– Sabe, Doutor: eu que sou pai, nem sempre a conheci.

Foi vendo a filha crescer, surpreendendo-se como ela se foi amulherando, de viagem para viagem, menos menina, menos filha, menos sua. Nova estada em casa, novos afectos, novas partidas, novas surpresas. E assim por aí afora.

– Essa vida de barco fez de mim uma ave de migrações trocadas. Já não sabia se estava indo, se estava vindo."

Trecho do romance Venenos de Deus, Remédios do Diabo, de Mia Couto.

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