
Uma das mais perfeitas metáforas das nuances sociais de países como Angola, Moçambique e até Cabo Verde todas nações africanas que têm o português como idioma oficial está problematizada literariamente nas páginas do romance O Vendedor de Passados, do angolano José Eduardo Agualusa. O protagonista Félix Ventura ganha a vida "vendendo" (inventando) passados para integrantes de uma emergente burguesia, com alto saldo bancário e nenhuma tradição. A idéia de criar uma ancestralidade ilustre dialoga até mesmo com um dos temas centrais das literaturas desses países africanos, que deixaram de ser colônias de Portugal em 1975 e, desde então, buscam e/ou forjam uma identidade, sobretudo, por meio da literatura.
Recuperar ou mesmo inventar uma identidade faz parte da trajetória de ex-colônias. No Brasil, isso também aconteceu. "O romantismo brasileiro, que se deu após a independência, também foi uma ação afirmativa em busca de identidade", afirma o professor de Teoria da Literatura da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) Marcelo Franz. No caso africano, as ex-colônias praticam uma literatura escrita recentemente, uma vez que, antes de 1975, havia poucas manifestações "em livro", que além de enunciarem um certo ponto de vista do colonizador, eram praticamente inócuas diante da força da oralidade pulsante naquelas regiões.
Na última década, escritores como o moçambicano Mia Couto e os angolanos Pepetela, Ondjaki, José Eduardo Agualusa e Gonçalo Tavares passaram a ocupar espaço no imaginário internacional por meio da força de suas obras. Seus livros desnudam impasses os mais africanos possíveis.
Os violentos confrontos que não cessam completamente de ocorrer nesses países são um dos motes recorrentes nas literaturas luso-africanas. "A guerra é algo comum nessas literaturas, direta ou indiretamente", disse o escritor José Eduardo Agualusa, em conversa por telefone, de Lisboa, para a reportagem da Gazeta do Povo. As obras de um Pepetela ou de um Mia Couto que o digam.
De liberdades e fabulações
Se a presença do colonizador sufocava, a liberdade descortinada a partir da década de 1970 também desestabilizou a realidade e, naturalmente, o imaginário dos povos de Moçambique, Angola e Cabo Verde. A professora de Literatura Africana da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Simone Schmidt analisa que as tensões anteriores e pós-1975 evidenciam que o fator política impactou e ainda pesa na literatura luso-afro. "Não apenas na produção literária. É interessante notar que muitos autores se envolveram diretamente com política", observa Simone, a lembrar que o primeiro presidente de Angola foi o poeta Agostinho Neto.
Além da busca por identidade, da reelaboração de temas como as guerras e do fator política, a imaginação mais do que fértil é outra característica definidora das literaturas africanas de expressão em português. "Na África, a realidade é mais surpreendente que a ficção", costuma repetir o escritor angolano José Eduardo Agualusa. E nas suas obras, de outros autores do continente, mas, sobretudo, na ficção do moçambicano Mia Couto, as situações literárias desafiam qualquer lógica e enquadramento racional. Seja recriação da realidade, ou fruto do engenho de dentro dos autores, o fato é que a ficção luso-africana faz, por exemplo, do realismo mágico da América Latina algo até previsível.
Fértil porvir
De Lisboa, onde vive há algumas décadas, o escritor angolano Gonçalo Tavares citou, por telefone, à reportagem da Gazeta do Povo, mais um aspecto da ficção luso-africana: a experimentação de linguagem uma espécie de prosa poética em alguns casos, como pratica Mia Couto em toda e qualquer linha que escreve. Tavares salienta que esse inventa-língua é uma marca dos autores de países africanos que escrevem em português, diferentemente de escritores portugueses que, na opinião dele, são mais conservadores. "Mas tem lugar para tudo, para a conservação e para a invenção." No entanto, Tavares pontua que a língua portuguesa é território que permite as mais variadas incursões inventivas. "Tudo está por ser feito."
Tavares e Agualusa, ambos angolanos residindo em Lisboa, acreditam que o futuro se insinua promissor para a literatura africana de expressão em português. De acordo com eles, e com outros especialistas consultados pela Gazeta do Povo, a exemplo das professoras Maria Teresa Salgado e Carmen Lucia Tindó Secco, ambas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), os investimentos recentes em educação, por parte dos governos, tanto angolanos como moçambicanos, devem frutificar em literatura. "Afinal, literatura se faz a partir de leitores, e para que surjam e se formem leitores, é preciso bibliotecas e fomento em educação", diz Tavares, praticamente repetindo o discurso de Agualusa e das docentes da UFRJ.
Hoje, a literatura luso-africana pauta as discussões da 4ª Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas (Fliporto), que segue até amanhã. O evento tem como mote Trilhas da Diáspora: Literatura em África e América Latina. Às 16 horas, os escritores angolanos Agualusa, Ondjaki e Pepetela entram em cena. Como se lê, reflete e constata, a teia literária mundial também é mais rica devido à presença dessas peculiares e viscerais vozes africanas.







