
Enquanto acompanhava a programação do Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto, do qual foi um dos curadores, o crítico Luiz Fernando Ramos fazia os últimos ajustes em sua tese de livre-docência, intitulada "Mimesis Espetacular: A Margem de Invenção Possível", em vias de ser enviada para publicação. A pesquisa se debruça sobre as novas formas de espetáculo, buscando esclarecer o percurso de desintegração de categorias artísticas na arte contemporânea e suas novas reconfigurações. Para ele, radicalidade de pesquisa e convicções são qualidades, seja num artista ou num político. Leia a entrevista concedida à Gazeta do Povo na cidade do interior paulista:
Como sua pesquisa acadêmica avança na abordagem da arte contemporânea?
Trabalho com o conceito de mimesis espetacular: tento propor um modelo de análise do teatro contemporâneo. Foco numa certa tradição antidramática [o teatro que não é baseado na contação de uma história com diálogos tradicionais] e faço o resgate dela no Brasil. No fim, uso os artistas contemporâneos Nuno Ramos [das artes plásticas] e Roberto Alvim [do teatro] como exemplos de artistas antidramáticos.
Faltam metodologias para entender a arte contemporânea?
Ao mesmo tempo em que houve a dissolução dos campos específicos das artes, com categorias borradas entre visuais, artes plásticas, o cinema, a música, estamos precisando de novos conceitos de pensar a arte de maneira mais integrada. Recentemente, um diretor de teatro de Bogotá, na Colômbia, criou um mestrado em "Artes Vivas". O conceito tem a ver com a performance, a instalação, o circo, a dança, enfim, todas as formas cênicas que precisam de um espectador em tempo real. Muitas obras de arte hoje são instalações, com o teatro que se serve de recursos das artes visuais e museus que viraram salas de espetáculo. São novos modos de ser do espetáculo.
Que teóricos já abordaram esse tema?
Faço a crítica a um historiador de arte norte-americano, Michael Fried, que, nos anos 1960 escreveu um artigo famoso dizendo que os artistas minimalistas americanos estavam matando as artes porque as transformavam em teatro que seria "o que não é arte"... Tento desmontar um pouco esse argumento, mostrando que ele defende uma proposta de teatro dramático, que foi contra o que o teatro do século 20 se levantou. Ele faz uma confusão que eu tento desfazer, e, a partir daí, construo a ideia de "antiteatralidade". Então, faço a análise de cinco ou seis artistas e recupero a relação do teatro antidramático, com o teatro brasileiro, começando com Qorpo Santo, depois Oswald de Andrade, Luiz Roberto Galizia e Ramos e Alvim como exemplos contemporâneos.
Sua pesquisa já teve alguma repercussão internacional?
Sim, publiquei um capítulo em uma revista francesa, artigos num livro sobre teatro contemporâneo escrito em inglês, que deveria integrar o catálogo da Bienal de Veneza, para a qual o Peep Classic Ésquilo [de Roberto Alvim] foi convidado, mas não conseguiram as passagens...
Qual seu interesse na obra do Club Noir?
Existe uma pesquisa ali que é muito singular no cenário brasileiro. Primeiro porque vem de um artista que já vinha trabalhando nos últimos 15 anos com o fortalecimento da dramaturgia como questão importante no teatro. E, a partir do encontro com Juliana Galdino e da criação do Club Noir, surge um projeto estético mais radical e, em certa medida, ele vai no sentido oposto ao que estava trabalhando, radicaliza a cena transformando a dramaturgia num elemento muito mais vinculado à oralidade do que às narrativas. E isso numa perspectiva mais antidramática e antimimética, que dá às palavras uma espécie de relevo musical-sonoro que, de certa maneira, as afasta dos sentidos e semânticas. Trabalha ainda numa superposição, numa sintaxe de falas líricas menos referencializadas.
A jornalista viajou a convite do festival.







