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Cinema

Filme discute a verdade sob ângulos diferentes

O Grupo Galpão aceitou montar As Três Irmãs, de Chekhov, partindo do zero e em apenas três semanas | Bianca Aun/ Divulgação
O Grupo Galpão aceitou montar As Três Irmãs, de Chekhov, partindo do zero e em apenas três semanas (Foto: Bianca Aun/ Divulgação)

Moscou, de Eduardo Coutinho, é feito de fragmentos retirados de mais de 70 horas de filmagem do processo de montagem da pe­­ça As Três Irmãs, feito pelo grupo Galpão, de Belo Horizonte. Sob a direção de Enrique Diaz, o elenco se dispôs, a convite do documentarista, a encenar o texto russo em apenas três semanas, sem nem ao menos conhecê-lo antes do primeiro dia de filmagem.

A intenção de Coutinho era tratar da representação, um tema já muito presente em sua cinematografia, mas que ele radicaliza em Jogo de Cena (2007), seu filme anterior, em que mistura depoimentos de atrizes aos de outras mulheres ao ponto de o público não saber quem atua e quem interpreta a si mesma. Em Moscou, o jogo, utilizado para questionar os conceitos de realidade e representação, verdade e mentira, é abandonado. Já não há não-atrizes representando diante das câmeras suas próprias histórias. Restam só atores, "aqueles que são pagos para viver as paixões dos outros", define Coutinho.

Ao expor o elenco ensaiando cenas de As Três Irmãs sem muito tempo para se preparar, por vezes com o texto nas mãos, Coutinho expressa o seu pouco caso pelo conteúdo da peça – apesar de tê-la escolhido por ser uma de suas preferidas. Sua intenção nunca foi fazê-la ser compreendida pelo espectador, mas utilizá-la para discutir o que se passa diante da câmera.

Coutinho queria acreditar nas falas dos atores. Mas essa verdade almejada não tem a ver com a fidelidade de cada ator ao texto de Chekhov, mas com sua capacidade de gerar convencimento, identificação, emoção. Os jogos criados por Diaz para fazer o grupo chegar ao texto serviram maravilhosamente bem a este propósito do cineasta. Se, em um momento, o elenco buscava experiências pessoais para problematizar seus personagens, em outro, "roubava" memórias dos colegas.

Não importa que, em sua tarefa de convencer, os atores remetam a fatos da história de Chekhov utilizando fotos da própria infância, cantem o hino da cidade de Divinópolis no lugar de uma canção russa, finjam tocar um violino enquanto a música que se ouve se origina descaradamente de um aparelho de som ou encenem uma cena do século 19 diante de um extintor de incêndio.

Em uma das cenas, a câmera flagra uma das atrizes que dão vida às irmãs chorando, preocupada com um problema familiar. As outras "irmãs" vêm consolá-la, ao mesmo tempo que interpretam, e já não se sabe o que é verdade ou mentira. Estão ali atores, mas também indivíduos como todos os outros registrados nos filmes anteriores de Coutinho – dos sertanejos de Cabra Marcado para Morrer aos moradores do Edifício Master.

Sim, eles incorporam paixões alheias, papel do ator, mas elas estão poluídas pelas suas próprias. Representação e metalinguagem são algumas das questões discutidas neste documentário complexo, feito de camadas que só serão descobertas por um espectador atencioso e disposto a vê-lo mais de uma vez. GGGG

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