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“Há alguns dias eu estava de bicicleta, parei no semáforo e parou um ônibus do meu lado cheio de torcedores indo para o estádio de futebol. Estava frio e eu estava de calça, blusa, toca, luvas... Os torcedores começaram a mexer comigo com palavras machistas, ofensivas, desrespeitosas.” | Fotos: Gustavo Jordaky
“Há alguns dias eu estava de bicicleta, parei no semáforo e parou um ônibus do meu lado cheio de torcedores indo para o estádio de futebol. Estava frio e eu estava de calça, blusa, toca, luvas... Os torcedores começaram a mexer comigo com palavras machistas, ofensivas, desrespeitosas.”| Foto: Fotos: Gustavo Jordaky

Se a cidade é a sua própria gente, peçam para Gustavo Jordaky mostrar o que é Curitiba. O fotógrafo paulista de 28 anos, radicado na cidade há 10, sai todos os dias às ruas para fotografar pessoas que ainda não conhece e levar um lero com elas. Faz isso desde julho de 2014, quando um morador de rua puxou papo depois que Jordaky clicou seu retrato na Praça do Homem Nu. Desde então, 320 curitibanos – de todas as espécies – foram perfilados pelo fotógrafo, que criou uma página no Facebook para divulgar essa coletânea de fotojornalismo antropológico: chama-se “Humans of Curitiba” e tem 40 mil seguidores.

Veja algumas imagens do projeto “Humans of Curitiba”

A ideia é inspirada no “Humans of New York”, projeto similar criado pelo fotógrafo norte-americano Brandon Stanton em 2010. Se está longe da marca de 16 milhões de seguidores, a essência é a mesma. “É um tema infinito. Há bons fotógrafos que se dedicam à paisagem, mas poucos olham para as pessoas”, diz Jordaky, que volta e meia fotografa as encrencas da Rua São Francisco do alto do prédio de sua namorada.

Aprendi a entender a cidade como um sistema em que todo mundo participa.

Gustavo Jordakyfotógrafo amador.
“Minha família sempre foi muito pobre. Nasci no interior e passei a minha infância em uma grande fazenda, eramos dez irmãos, hoje todos formados e bem de vida. A fazenda não era nossa, meus pais trabalhavam e vivíamos lá. Mesmo com uma infância pobre, nós eramos unidos.”

Não há tempo ruim: chuva se resolve com guarda-chuva (a Canon T5i custa uns R$ 2.100). Tampouco preconceito: Jordaky circula pelo Centro e conversa com pedintes, músicos de rua, crianças, prostitutas, senhoras a caminho do trabalho; e pelo Batel, onde encontra empresários e donas nos trinques.

A média de aceitação da abordagem vai contra a ideia de que o curitibano é mais fechado que porta de submarino: 80% das pessoas toparam bater papo. As perguntas são sobre sonhos, decepções, a infância, o melhor dia da vida e como o entrevistado se vê daqui a dois anos. Como o encontro casual depende do humor alheio, a conversa varia “entre três e 25 minutos”.

“Jaime sempre está ali, na Rua São Francisco. Nessa porta, nessa posição”, explica Gustavo em um dos perfis. “A não ser que o telefone toque, então ele vai correndo atender.”

À procura da felicidade

Depois de ouvir tanta gente, uma síntese das conversas poderia ser a “busca da felicidade, cada um à sua maneira”. Jordaky se deparou muitas vezes com personagens com um nível de superação gigantesco – o flautista que não tem as duas pernas, a moça cuja mãe é usuária de crack – e se derreteu com entrevistas de crianças, sinceras e criativas. Também melhorou “como pessoa”, como se diz.

“Aprendi a entender a cidade como um sistema em que todo mundo participa. Venci minha timidez e aprendi a respeitar a individualidade de cada um”, diz. A ideia para 2016 é se aventurar mais pelos bairros, por shoppings, lançar um livro com fotos do projeto e conseguir viabilizar um patrocínio para continuar a descobrir Curitiba. “Rapaz, só gastei dinheiro com isso. Mas não consigo parar.”

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