Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Idéias

Grã literatura

Mais do que nunca, a literatura britânica é um território multicultural habitado por escritores de ex-colônias e por filhos de imigrantes

"Sonhava ser um escritor inglês."

Essa curiosa confissão, recebida com hilaridade pela platéia de um dos debates mais instrutivos da 5.ª Festa Literária Internacional de Parati (Flip), realizada no início deste mês, foi proferida pelo argentino Rodrigo Fresán, autor de Jardins de Kensington e que já foi chamado de "Borges pop". Aliás, o Borges original, sim, com aquela altivez de um lorde, caberia num certo estereótipo de "grande representante da tradição literária inglesa".

Mas a anedota sobre Fresán faz pensar: e hoje, o que é um escritor inglês?

Estranha à primeira vista, a pergunta se torna obrigatória numa visita ao mais completo site da internet sobre a literatura contemporânea britânica, Contemporary Writers in the UK (www.contemporarywriters.com). É possível consultar a base de dados – que inclui biografias, bibliografias e comentários críticos de dezenas de autores nascidos ou radicados no Reino Unido – por um critério de "nacionalidade". Claro, por serem há algumas décadas um território multicultural, as ilhas britânicas viram florescer alguns ótimos escritores vindos de ex-colônias e, mais recentemente, filhos de imigrantes. A surpresa é que a busca por esses autores pelo critério "nacionalidade", no mencionado site, terá como resultado nomes quase desconhecidos. Um célebre autor indiano identificado com a Inglaterra? Que tal Vikram Shandra, Amit Chaudhuri, Anita Desai? De Salman Rushdie, nem sinal. E quem seria o grande escritor de Trinidad e Tobago revelado por editores ingleses? V.S. Naipaul, certo? Nossa pesquisa apontará um novato, Anthony Joseph. E mais ninguém da ilha caribenha.

Não que o Contemporary Writers tenha simplesmente esquecido de Rushdie, Naipaul e mais uma dezena de escritores com nomes e/ou sobrenomes difíceis de pronunciar que, com freqüência cada vez maior, ganham espaço nos suplementos literários. Apenas o site prefere classificá-los, em termos de nacionalidade, como "britânicos", ponto.

Essa verdadeira revolução numa das literaturas mais ricas e influentes do mundo começa nos anos 80. Bíblia da nova literatura em língua inglesa, a revista Granta tem publicado, a cada década, um número especial apontando 20 nomes de romancistas jovens e promissores. Em 1983, um quase desconhecido Salman Rushdie apareceu na lista. Ao lado dele, a atual santíssima trindade do romance, digamos, inglês-inglês – os "brancos" Ian McEwan, Martin Amis e Julian Barnes. A trajetória de Rushdie, tão fulgurante quanto as dos outros três, é emblemática da mudança de ares – e caras e cores – na literatura inglesa. Rushdie ainda não havia publicado, àquela altura, seus Versos Satânicos, mas se tornava um escritor de prestígio. O resto, como se diz, é história.

As duas edições especiais seguintes de Granta mostraram o mesmo poder de impulsionar as carreiras de novatos muito talentosos, de outros cujo talento não desabrochou como se esperava e, em menor escala, de algumas promessas logo frustradas. Na relação de 1993, apareceram nomes como Allan Holinghurst (ganhador do prestigioso Booker Prize em 2004, por A Linha da Beleza), Kazuo Ishiguro (Os Vestígios do Dia) e Will Self (Como Vivem os Mortos). Já em 2003, na lista mais recente de Granta, surgiram escritores hoje consolidados: Monica Ali, autora do elogiado Um Lugar Chamado Brick Lane, Dan Rhodes (Timoleon Vieta Volta para Casa) e Adam Thirlwell (Política).

Há que se ter o cuidado de não limitar a variadíssima literatura britânica atual às listas de Granta: basta dizer que em nenhuma delas aparece o que se poderia chamar "ala pop" do romance inglês, o cultuadíssimo Nick Hornby como seu maior representante. Ou ainda autores muito peculiares como o mestre da comédia social Jonathan Coe e o inusitado best seller Mark Haddon.

Dois nomes merecem um comentário à parte – não só pela qualidade do que vêm produzindo, mas também por serem, como seus antecessores Rushdie e Naipaul, legítimos representantes literários dos principais grupos de imigrantes na Inglaterra. São eles: Hanif Kureishi (citado pela Granta em 1993), filho de mãe inglesa e pai paquistanês, portanto parte da grande imigração asiática; e Zadie Smith (incluída na lista de 2003), filha de mãe jamaicana e pai inglês, portanto ao menos metade caribenha – ou, conforme preferem os ingleses, "west indian".

Kureishi começou a vida de escritor com um grande sucesso... nos cinemas: é dele o roteiro original do cult oitentista Minha Adorável Lavanderia, em que as bases de sua literatura parecem já definidas. À diferença de um Rushdie, o autor trata pouco das histórias meio míticas e, aos olhos de muitos ocidentais, deliciosas em seu exotismo do Paquistão – onde vive ainda hoje boa parte da família Kureishi, como mostra seu mais recente livro, o autobiográfico No Colo do Pai. O personagem de Kureishi, ao contrário, é o filho de imigrantes que, pelos subúrbios de uma Londres que ama e odeia, e que o aceita e ao mesmo tempo hostiliza, torna-se invisível: não é mais paquistanês ou indiano, tampouco recebe o tratamento que um "autêntico" inglês mereceria.

Kureishi, se não resolve, em parte acomoda, mesmo que incomodamente, os dilemas de identidade na grande metrópole. E, para isso, não teve medo de colocar o dedo nas feridas, sim, culturais do fundamentalismo religioso e do racismo, e muito antes de seus pares. Seu romance de estréia, O Buda do Subúrbio, disseca esses temas, enquanto o livro seguinte, O Álbum Negro – misturando um guru que Shahid (o protagonista "paqui") conhece em seus primeiros dias de universidade, a condenação dos Versos Satânicos de Rushdie pelos aiatolás do Irã e a música de Prince – inaugurou a nova literatura urbana, decididamente multicultural, na Inglaterra dos anos 90. Nesse aspecto, também inesquecível é o conto "My Son the Fanatic", da coletânea Love in a Blue Time, que pede tradução urgente para o português. Finalmente, em Intimidade, talvez seu livro mais tocante, Kureishi dá a própria versão de outro drama urbano contemporâneo: o divórcio.

Christian Schwartz é jornalista, professor de Literatura e Língua Portuguesa do Centro Universitário Positivo (UnicenP) e mestrando em Estudos Literários na Universidade Federal do Paraná (UFPR)

Você pode se interessar

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.