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Há sempre luzes

A artista plástica Estela Sandrini descreve a perda da visão em suas obras por meio de “buracos brancos”

Estela Sandrini em seu ateliê: a artista plástica investe na pintura, que foi banalizada e hoje está quase sem mercado | Ivonaldo Alexandre/ Gazeta do Povo
Estela Sandrini em seu ateliê: a artista plástica investe na pintura, que foi banalizada e hoje está quase sem mercado (Foto: Ivonaldo Alexandre/ Gazeta do Povo)

Estela Sandrini traduz em suas telas a ideia da "prisão da pintura". O que é isso? Talvez seja necessário ver para entender. Ela começa com tinta acrílica e finaliza os quadros com tinta à óleo. Aos 65 anos, tem apenas 5% da visão, e isso apenas no olho direito (com o esquerdo, nunca enxergou). Uma doença degenerativa há muito sentenciava que, para ela, as luzes iriam se apagar. "Só vejo o essencial", diz, e logo emenda: "Há compensações." Agora, sente mais os cheiros e os sons do mundo. Afirma que também se livrou de culpa, medo e vergonha.

"Há dez anos, jamais daria uma entrevista dessas", afirma a artista, que conversou com a Gazeta do Povo na sua casa, no bairro do Tarumã. Hoje, Teca – como é chamada por familiares, amigos e colegas – consegue verbalizar quase tudo o que se passa em seu imaginário: "Fato que considera uma conquista".

Ela diz sentir falta do contato diário com o ambiente da Escola de Música e Belas Artes do Paraná (Embap), onde lecionou durante a década de 1990. "Dialogar com jovens artistas como o Marcelo Scalzo e o Goto, jovens, brilhantes, pouco preocupados com o mercado, me faz falta", diz. Ela constata, e lamenta, que as vendas de quadros estão estagnadas. "O pintor (de quadros) é igual ao alfaiate. Está entrando em extinção."

Imagem recorrente

A pintura se tornou prática e meio de expressão para Teca durante, e depois, de uma temporada em Baltimore, nos Estados Unidos, na década de 1980. Ela acompanhava o marido, Romolo Sandrini, que fazia um curso de aprimoramento. Entre cuidar dos filhos, e outras atividades, conseguiu espaço em um ateliê no Instituto de Arte de Maryland. Nessa época, a cadeira surgiu – e se consolidou – como tema e imagem recorrentes em suas telas.

"A cadeira representa a espera, o descanso e o pensar", afirma. Hoje, Teca considera que essa cadeira – ou o que esse objeto re­­presenta – é uma maneira (a sua) de olhar o mundo. Co­­mu­­nicar uma ideia por meio de expressão artística é algo que ela conseguiu, indiretamente, por intermédio de seu pai, José Er­­nesto Ericksen Pereira. Ele era jornalista e dialogava com pintores como Freyesleben, Guido Via­­ro e Theodoro De Bona. Quando Teca terminou o equivalente ao ensino médio, em 1962, ainda não tinha pensado no que faria da vida. Então, seu pai lhe apresentou Guido Viaro.

A ex-aluna do Sion lembra da tarde em que subiu os degraus de uma escada que a levariam não apenas ao sótão da Belas Artes, mas à primeira e decisiva aula com Guido Viaro. Antes de ela sair, o mestre – após analisar os primeiros ensaios da futura aprendiz – foi objetivo: "Você tem talento". Essas três palavras mudariam o destino da jovem artista e ainda comovem Teca.

Uma trajetória

Os desenhos que ela elaborou du­­rante a década de 1980 ganharam espaço em salões e se desdobraram em prêmios. Teca traduziu neles a mulher de sua geração, a que aderiu aos métodos contraceptivos, buscou a própria voz e conquistou espaço no mercado de trabalho. Essa dicção, ou "poética", talvez tenha começado a ser elaborada na década de 1960, período em que era estudante na Embap. O convívio com Fernando Calderari, João Osório Brzezinski, Zeca Malu­­celli e Juarez Machado foi enriquecedor.

Os "buracos brancos", presentes em muitos de seus quadros a partir da década de 1990, podem ser interpretados como a artista problematiza a perda de visão. Também podem ser lidos de acordo com a sensibilidade do interlocutor. E interlocução é algo que ela faz questão de ter.

Teca parece sempre deixar portas abertas em sua vida. Atende chamadas telefônicas ao mesmo tempo em que recebe encomendas – e recorda que desenhou mui­­to enquanto cuidada de seus filhos (Giovana tem 39 anos e Juliano, 36).

Na década de 1970, o Centro de Criatividade de Curitiba, no Parque São Lourenço, foi um espaço em que se discutia e se pensava as artes, o mundo, a existência: ela chegou a fazer escultura com resina de poliéster.

A pintura, as razões de pintar, sempre foi uma questão para Teca. Se há preconceitos em relação aos pintores de quadro, "pois a pintura foi banalizada", ela afirma que sente muito prazer em pintar, mesmo com apenas 5% da visão. Emocionada, recorre a Viaro, mais que professor, um sujeito que incentivava todos a conjugar três verbos: fazer, arriscar e ousar. Teca segue a recomendação do mestre. E pretende continuar assim.

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