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O que achamos – A prepotência prejudicou ARTPOP

Marcelo Furtado, editor do Gaz+

Lady Gaga surgiu divertida. Ela mandava você apenas dançar, te desafiava a ler sua cara de paisagem e perseguia um amor com a intensidade de um paparazzo. As letras eram grudentas, o ritmo contagiante. Dava para dançar na balada e ouvir em casa. Imaginar qual seria a sua próxima roupa bizarra era divertido. "O que será que ela vai aprontar no próximo VMA?", todo mundo se perguntava. Os fãs, hiperbólicos como sempre são, a chamavam de rainha. A nova rainha do pop. Madonna não gostou. Lady Gaga adorou – e, pior, acreditou.

Era de se esperar que, depois do sucesso modesto de Born This Way, um disco no qual a cantora apostou todas as suas fichas, dizendo ser a grande revolução da música pop, ela viria mais humilde em ARTPOP. Não veio. No Twitter, dias antes do disco vazar, ela anunciava que esse era o "álbum do milênio", gerando expectativa e, principalmente, antipatia entre a galera.

As músicas, enfim, caíram na rede, no gosto dos little monsters… e só. O que parece é que todo mundo se cansou de Lady Gaga e, por isso, não deu tanta atenção assim ao seu novo trabalho.

O álbum é ruim? Não. Mas também não é bom. É prepotente como Born This Way. É monotemático como The Fame. Pena que não é tão divertido quanto. "Applause", o primeiro single, é uma faixa legal, descompromissada, mas não carrega o disco nas costas. "Gipsy" é uma das melhores músicas do CD e "Manicure" precisa ser single. De resto, nada chama muito a atenção. Em "Swine", faixa "dedicada" ao blogueiro Perez Hilton, com quem Gaga teve uma rixa, parece que falta algo. "G.U.Y" e "Sexxx Dreams" falam sobre o mesmo assunto – sexo. "Fashion!" e "Donatella" são fillers – aquelas músicas que só estão ali para preencher tabela. E "Do What You Want", single atual, parece uma canção rejeitada por Christina Aguilera. Os fãs, claro, vão chiar, mas não adianta. Lady Gaga é talentosa, mas precisa se encontrar novamente.

Os fãs da cantora pop estão em polvorosa com o lançamento do novo álbum, o ARTPOP, que sai oficialmente em dois dias, mas que já vazou na internet. Com o novo trabalho, a Mother Monster tem uma dura missão pela frente: deixar para traz o malsucedido Born This Way, e voltar ao topo das paradas. Se ela vai conseguir ou não, só o tempo dirá, mas algo é fato: Lady Gaga é referência não só quando se fala de música, mas também de moda e de compor­ta­mento. Várias faces de uma artista que ainda dá o que falar.

Na música, ela ainda gera discussão e polêmica

Musicalmente, quando estourou em 2008, Gaga foi muito comparada a Madonna, especialmente por trazer de volta ao pop o resgate do absurdo e do freak show, que andavam esquecidos desde a década de 90. Sem contar as performances, antes tão atreladas a esse estilo musical, que voltaram a chamar tanta atenção – ou mais – que a própria música.

Mas este é o quesito mais polêmico entre críticos e fãs da cantora. Há quem ache que, mesmo no auge do sucesso dos dois primeiros álbuns, as letras e o som nunca foram de grande qualidade. "Ela é muito mais performance do que música. Trouxe choque estético, sem medo de ser ridícula. Isso é sadio", diz o jornalista e blogueiro de música eletrônica Camilo Rocha.

Por outro lado o DJ Celso Ferreira aponta que os as letras e os refrões "grudentos" trouxeram novamente alma para o pop e passaram a influenciar outros cantores. "Ela chegou abafando, super em alta. Tinha uma música mais mastigada. Nos últimos álbuns acho que fez algo mais conceitual. Mas acho que o ARTPOP conseguiu resgatar sim essa ideia do começo da carreira."

Influência no comportamento consolidou fãs

Se por um lado Lady Gaga ditou moda, por outro a cantora tomou para si uma bandeira bem forte: ideia da aceitação, embalada em frases como "seja você mesmo", "se aceite" e "não se prenda ao padrão de beleza imposto". O conceito é reforçado na própria estética da cantora, que não tem uma beleza convencional, com corpo e rosto de modelo internacional. Por isso esse comportamento é, segundo especialistas, a maior contribuição do trabalho da artista.

O discurso forte para motivar as pessoas a aceitarem suas imperfeições e serem felizes deu tão certo que muitos dos fãs que conquistou – e que mantém até hoje – curtem a cantora porque passaram a pensar de outra forma depois de se inspirarem nela. "Essa é uma ideia superinserida no espírito do nosso tempo. Por isso foi um ingrediente importante na fórmula de sucesso de Gaga. Ela foi capaz de abraçar o que é feio e o que é bonito ao mesmo tempo", explica a consultora Paula Foletto Abbas.

Outro ponto forte do comportamento da Mother Monster é a apologia à liberdade e o combate total a todo tipo de preconceito. "Ela usa sua fama para apoiar causas legítimas, como o combate à homofobia. Isso é muito positivo", diz Camilo Rocha, jornalista do jornal O Estado de São Paulo e blogueiro de música eletrônica.

Por isso ela virou também a musa do público gay. "Eu quero muito injetar a cultura gay no mainstream. Comprometi-me com eles e eles se comprometeram comigo. É por causa da comunidade gay que estou onde estou hoje. Sinto-me intrinsecamente inclinada a um estilo de vida mais gay", disse Gaga em um capítulo da sua biografia, Lady Gaga, a evolução do pop, lançada em 2010.

Nas roupas, Gaga abusa de referências e mistura estilos

Excêntrica, Lady Gaga tem um objetivo: chamar a atenção também pelo o que veste. Conse­­­­guiu. Não só deu certo como se tornou referência de moda entre os mais diversos estilos. Mesmo quando a intenção é chocar – como foi com a famosa roupa de carne usada durante o MTV Video Music Awards, em 2010 –, a cantora deixa sempre a sua marca e dita tendência.

"Ela consegue ser várias ao mesmo tempo. Por um lado retoma os símbolos da feminilidade usando corpetes e espartilhos, por outro abusa de representações fetichistas como correntes, máscaras e uniformes. Brinca também com signos, como a ideia de mulher boneca e mulher santa", diz a pesquisadora de tendências e analista cultural da Anima Trends, Paula Foletto Abbas.

Essa facilidade em mudar sua imagem super rápido – e sempre com algo diferente e inovador – está, segundo Paula, bem dentro do perfil do consumidor de moda hoje, que se sente atraído por aquilo que ultrapassa os limites e que, por causa das influências da internet, precisa de algo novo em pouco tempo.

O DJ residente da festa POPLine, do James, Celso Ferreira, lembra que o auge do seu estilo foi na época da canção "Poker Face", do primeiro álbum, The Fame. "Todas as revistas só falavam do que ela usava. Até a Katy Perry foi influenciada pelo estilo dela. Mas hoje acho que está mais cansativo, com muito exagero e até virou motivo para piada."

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