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Soljenitsin: nas palavras de Vladimir Putin, “o primeiro a ter relatado uma das grandes tragédias soviéticas” | AFP
Soljenitsin: nas palavras de Vladimir Putin, “o primeiro a ter relatado uma das grandes tragédias soviéticas”| Foto: AFP

O escritor russo Alexandre Soljenitsin, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1970, morreu em Moscou no domingo, aos 89 anos, vítima de uma parada cardíaca.

Encarcerado por mais de dez anos nos campos de concentração comunistas soviéticos – chamados de gulags –, ele relatou em seus livros o horror que vivenciou, tornando-se o mais famoso dissidente do regime.

Nascido em 11 de dezembro de 1918, estudou física e matemática na Universidade Rostov e se tornou oficial do Exército soviético em 1941, após a invasão nazista. Porém, depois de criticar a forma como Stálin conduziu a guerra, foi enviado aos campos de concentração.

Em 1962, publicou Um Dia na Vida de Ivan Denisovich, romance em que descreve a vida passada em campos de trabalho forçado. Foi seu único trabalho publicado em sua terra natal antes de ser expulso do país, em 1974, depois de se recusar a manter silêncio sobre o passado de seu país.

Após se radicar em Vermont, nos Estados Unidos, tornou-se um ícone da resistência ao comunismo. Voltou à Rússia pós-soviética em 1994, recebendo tratamento de herói. Quatro anos depois, o então presidente russo, Boris Ieltsin, concedeu a Soljenitsin a Ordem de Santo André, um dos maiores prêmios culturais do país. Mas recusou, argumentando não poder aceitar "essa honra", pois os russos "morrem de fome".

Nos anos 1970, saiu em Paris sua monumental história da polícia secreta soviética, a KGB: O Arquipélago Gulag.

No ano passado, foi homenageado pelo presidente russo Vladimir Putin com a entrega de um dos mais importantes prêmios do país, a medalha do Estado.

Putin era coronel da KGB quando o escritor foi exilado.

Na homenagem, Putin qualificou Soljenitsin de "historiador maior", "o primeiro a ter relatado uma das grandes tragédias soviéticas", menção aos campos de prisioneiros reservados aos que cometiam os chamados crimes de opinião.

Em seu governo, Putin passou a valorizar a visão que Soljenitsin tinha da Rússia, como um bastião do Cristianismo Ortodoxo com uma cultura e um destino únicos.

Em 1978, em uma palestra em Harvard, o escritor havia dito: "Qualquer cultura autônoma antiga e profundamente enraizada (...) constitui um mundo autônomo, repleto de enigmas e surpresas para o pensamento ocidental. Por milhares de anos, a Rússia pertenceu a essa categoria".

No romance Pavilhão dos Cancerosos (1967), de caráter autobiográfico assim como outros que escreveu, trata do câncer de que foi vítima, mas usando-o como metáfora do stalinismo. "Um homem tem um tumor e morre – como então pode sobreviver um país que deu origem a campos de concentração e exílios?"

Soljenitsin era o mais velho Nobel de Literatura vivo. No texto que escreveu para a a entrega do prêmio – a que não pôde comparecer – disse: "Somos nós que devemos morrer – a arte deve permanecer. E devemos compreender, mesmo no dia de nossa destruição, todas suas facetas e todas suas possibilidades?".

Desde que voltara do exílio, o escritor levava uma vida isolada nos arredores de Moscou. Em vez de celebrar a Rússia liberta do comunismo, ele passou a criticar o materialismo e a corrupção do país. Também passou a atacar sistematicamente os EUA e a Otan, a aliança militar ocidental, por terem, segundo ele, "cercado" a Rússia na tentativa de asfixiar sua soberania.

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