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autobiografia

Da prostituição em NY à tentativa de suicídio, Gerald Thomas narra o próprio drama

Diretor teatral que se afastou dos palcos e chegou a tentar o suicídio no ano passado lançou esta semana “Entre Duas Fileiras”

  • Estadão Conteúdo
Responsável por peças seminais, Gerald Thomas está afastado dos palcos desde 2014 | Daniel Caron/Arquivo/Gazeta do Povo
Responsável por peças seminais, Gerald Thomas está afastado dos palcos desde 2014 Daniel Caron/Arquivo/Gazeta do Povo
 
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A angústia parece rodear eternamente o diretor Gerald Thomas. Encenador de peças seminais no teatro brasileiro, como “Eletra com Creta”, “Carmem com Filtro” e “The Flash and Crash Days”, todas no final do século passado, além de “Um Circo de Rins e Fígados”, em 2005, ele gosta também de lembrar de seus fracassos e outras situações que quase o levaram ao fundo do poço, a ponto de ter tentado o suicídio, no ano passado.

Gerald costuma dizer que sua vida é o teatro - fora do palco, não se reconhece, mesmo quando não está, de fato, dentro dele. É esse espírito que inspira “Entre Duas Fileiras” (Record), autobiografia que Gerald lança nesta quarta-feira (23) em São Paulo.

Vivendo entre Nova York e os alpes suíços, ele volta ao Brasil depois de dois anos. E, mesmo com um romance pronto e uma seleção de peças em vias de ser publicada, Gerald não pensa em voltar ao teatro, tamanha decepção alimentada pelos últimos trabalhos. Mas, como boa parte dos artistas, ele age conforme o impulso, o mesmo que o convenceu a se prostituir em Nova York quando lá chegou, jovem imberbe - mais rentável que lavar pratos ou trabalhar como garçom.

Ou a criar uma relação próxima com Samuel Beckett, tornando-se um de seus principais interlocutores e encenadores contemporâneos. Finalmente, o aprendizado no experimentalismo do La MaMa, de Nova York, e a passagem pelo Living Theatre, ambos centros fundamentais de formação. Antes de chegar ao Brasil, Gerald conversou por telefone com a reportagem.

Você já vinha falando de escrever essa autobiografia há um tempo. Por que agora?

Faz onze anos que trabalho nele. Não foi assim de repente. E houve vários títulos. A escrita começou e terminou na Suíça. No começo, eram notas, ‘suicide notes’, que eu não pensava ainda em publicar como autobiografia. Eu estava deprimido e, como a tecnologia não era tão avançada ainda, arquivei tudo em disquetes. Eu ia até o correio e imprimia toneladas de papel. Finalmente, em 2011, quando comecei a negociar a publicação, tinha cerca de 40 mil páginas arquivadas. Se fossem impressas, daria um livro para ser carregado numa mala de rodinhas.

A narrativa tem esse pulso de consciência típico das suas peças, um texto que vai sendo completado à medida em que se avança na leitura.

E eu me coloco como o personagem de uma peça, um monólogo em que apresento ao leitor as minhas impressões. No começo, pensei em fazer de uma maneira tradicional, escrevendo verbetes, datas, aquela coisa besta. E o que mais li na vida é biografia. Adoro ler sobre pessoas, talvez mais do que elas escreveram. Mas tenho reservas com autobiografias - não confio. Acho que a pessoa coloca brilho demais ou treva demais.

Não considero algo honesto e me peguei fazendo a mesma coisa, ou seja, colocando purpurina, chão de estrelas. E, nesse último ano, depois da tentativa de suicídio, percebi que não tenho nada mais a perder. O suicídio do ator Robin Williams me tocou muito. Tenho 62 anos e esse tipo de acontecimento tem me abatido. Os assassinatos na sede do jornal Charlie Hebdo, os atentados terroristas na França, eu me senti no meio disso tudo. Não é guerra, é terrorismo.

Eu me peguei levando um susto atrás do outro, uma rasteira da nova era. Desde os atentados do 11 de Setembro, eu sofro de algo que ainda não sei explicar. Tenho pânico. Em alguns dias, consigo sair de casa, mas, em outros, não consigo. Antigamente, eu trabalhava no La MaMa, pegava um avião para São Paulo, ensaiava, e voltava. Não tinha problema nenhum e hoje, para pegar um voo de Zurique para Londres, viagem de apenas uma hora, fico aos prantos no aeroporto, tentando cancelar. Se eu estiver te apavorando, me fale.

Apavorando, não. Você está me surpreendendo. Continue.

Tenho que botar na cabeça que não sou mais aquele. Faço ginástica, corro, levanto peso, me cuido, passo Androgel na pele, que funciona como testosterona, mas os hormônios não são mais os mesmos. É algo proustiano, como correr atrás do tempo perdido. Por isso, prefiro ficar quieto em casa.

Nesse último ano, depois da tentativa de suicídio, percebi que não tenho nada mais a perder. O suicídio do ator Robin Williams me tocou muito. Tenho 62 anos e esse tipo de acontecimento tem me abatido.

Sua forma de trabalho mudou?

Não faço nada desde “Entredentes” (2014), que foi uma experiência muito ruim. Aliás, te desafio a mostrar um artista que tenha coragem de se autodenunciar. Que diz que não gostou do último trabalho. Geralmente, ele se autoglorifica. Eu não. Tem uma coisa ali e aqui, mas não gostei do resultado. Nunca gastei dois anos para ficar elaborando uma peça que se revelou uma bobagem. A última que fiz e gostei foi “Circo de Rins e Fígados”, em 2005.

Nenhum projeto, então?

Talvez eu monte uma peça chamada “Articulose”, texto que escrevi na época de “Electra Com Creta”, descoberto agora pelo William Pereira, que organiza minhas peças. Estou lendo com algumas pessoas, talvez saia alguma coisa, talvez não. Mas não é uma urgência.

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