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Um encontro entre o chileno Roberto Bolaño (1953-2003) e o mexicano Mario Santiago Papasquiaro (1953-1998) no Café La Habana, na Cidade do México, em 1975, constituiu-se numa guinada para a formação de um dos movimentos literários mais significativos da América Latina: o infrarrealismo.

Anticonformismo era característica

O anticonformismo é também característica dos infrarrealistas. Um dos objetivos do movimento era combater os chamados “poetas estatais”

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Formado por jovens poetas latino-americanos de origem mexicana, chilena e peruana, o grupo, que ficou famoso após ser retratado no livro “Os Detetives Selvagens”, de Roberto Bolaño, foi profundamente influenciado pela poesia da geração beat norte-americana – Allen Ginsberg, Gregory Corso e Lawrence Ferllinghetti – do início da década de 1950 e começo dos anos 1960. No texto “Como veo doy, una mirada interna del movimiento infrarrealista”, um dos membros do movimento, o poeta mexicano Ramón Mendéz Estrada, relata um encontro com Bolaño e Papasquiaro, na casa do chileno, em uma madrugada de 1975. No local, Bolaño chama Estrada de Gregory Corso e confere a Papasquiaro o apelido de Allen Ginsberg. Segundo ele, seriam os beatniks do México.

O consumo do álcool e uma intensa paixão pela poesia são pilares dos infras, que buscam em cada verso uma maneira de explicar o mundo.

Andreas Cobas Carral, em artigo sobre o movimento infrarrealista.

Hacer aparecer las nuevas sensaciones – subvertir la cotidianidad”(algo como “fazer surgir as novas sensações – subverter o cotidiano”, em tradução livre), escreve Bolaño no primeiro manifesto infrarrealista, datado de 1976. O escrito também promove a aproximação do movimento com os franco-atiradores, os solitários que permeiam os cafés e os massacrados em supermercados; propõe subverter a realidade cotidiana da poesia atual – concentrada, à época, na figura do poeta mexicano Octavio Paz – e construir um novo lirismo na América Latina. Outros dois manifestos também foram escritos: “Por un arte de vitalidad sin límites”, de José Vicente Anaya e Manifiesto infrarrealista”, de Mario Santiago Papasquiaro.

Quem são

Organizada pelo poeta José Vicente Anaya, lista integra os 20 participantes do grupo: Mario Santiago Papasquiaro; Roberto Bolaño; José Vicente Anaya; Juan Esteban Harrington; Jorge Hernánez; Rubén Medina; Ramón Méndez Estrada; Cuauhtémoc Méndez Estrada; Lisa Johnson; Mara Larrosa; Vera Larrosa; Gelles Lebrija; Pedro Damián Bautista; Víctor Monjarás-Ruiz; Bruno Montané; Guadalupe Ochoa; José Peguero; Estela Ramírez; Lorena de la Rocha e José Rosas Ribeyro.

Em seu texto, Anaya caracteriza o movimento como “hedonista, narcisista, kantiano, hegeliano, marxista, anarquista, metafísico, utópico, existencialista; simultaneamente tudo isso e nada ao mesmo tempo.” Já Papasquiaro defende em sua publicação que a função do infrarrealismo é “mover o ser humano de sua dependência e passividade.”

No artigo “La estupidez no es nuestro fuerte’: tres manifestos del infrarrealismo mexicano”, Andrea Cobas Carral escreve que o consumo do álcool e uma intensa paixão pela poesia são alguns dos pilares dos infras, que buscaram em cada ato e verso uma nova maneira de explicar o mundo e traduzi-lo com poesia destituída de burocracias. Ou seja, marcando uma nova abordagem com a inserção do realismo visceral e novos formatos reais e amplos de se enxergar o cotidiano. O estilo seria “o olho de transição”, como explica Roberto Bolaño em seu tratado.

Hora Zero

O grupo vanguardista peruano Hora Zero foi um dos principais movimentos que influenciaram o surgimento do infrarrealismo. Criado em 1970, teve como um de seus fundadores o poeta Juan Ramírez Ruiz. Os integrantes do grupo estavam insatisfeitos com a produção literária peruana, que “desde César Vallejo não se escrevia nada digno”. O poeta peruano Tulio Mora, um dos participantes, elencou algumas características do “poema integral” – alcunha dada a uma espécie de modelo de escrita dos “horazerianos”. Portanto, a formatação dos poemas do grupo buscava “o equilíbrio entre o conflito estético do culto do popular-marginal; a poética da experiência; a experimentação; a associação de diversos discursos; a necessidade de novos perfis humanos para tornar crível uma nova subjetividade; negação do eu-lírico, diluindo-o em outros assuntos da poesia épica ou dramática, e a fusão das quatro fontes emissoras da poesia: cosmopolita, nativista, mitológica e urbana.”

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