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Memória

Livro mostra vida do astro Mussum fora das telas

Biografia marca os 20 anos de morte do Trapalhão que virou filão comercial e mito nas redes sociais. Carreira como músico em grupos de samba é destaque da obra

Samba, comédia e cachaça: escrachado em cena, Mussum era polido e disciplinado na vida real | Arquivo
Samba, comédia e cachaça: escrachado em cena, Mussum era polido e disciplinado na vida real (Foto: Arquivo)
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"Eu não sou faixa ‘pretis’. Sou ‘pretis inteiris’", explica o comediante Mussum, com sua prosódia particular, numa cena de um dos filmes dos Trapalhões depois de, com uma só pernada, derrubar três oponentes em uma luta.

A cena, olhada em detalhe, mostra a marca do humor do ator e revela algumas das facetas deste que é um dos artistas mais amados do país: o comediante escrachado era também um ágil passista de samba e um militar disciplinado.

Era mais do que isso: um músico talentoso com êxito internacional, ator e palhaço profissional dedicado e competente, boêmio por vocação, um pai exigente e uma pessoa gentil e educada na intimidade.

Este é o retrato completo traçado pela biografia Mussum Forévis – Samba, Mé e Trapalhões, que o jornalista paulistano Juliano Barreto lança 20 anos após a morte do artista.

O livro mostra um Mus­­sum além de sua lenda, maior que o beberrão engraçado que hoje se transformou em ícone da internet.

A narrativa começa pela infância, no Morro da Ca­­choeirinha, em Lins de Vasconcelos, na zona norte do Rio de Janeiro, onde ele cresceu sozinho, enquanto a mãe, cozinheira de famílias ricas, trabalhava de domingo a domingo.

Quando já estava se tornando mais um dos moleques desocupados de seu bairro, teve a iniciativa de se matricular na Fundação Abrigo Cristo Redentor, internato público criado pela ditadura de Getúlio Vargas. Na Fundação, se tornou um bom e disciplinado aluno e fez curso profissionalizante de mecânico.

Quando deixou o internato, a família havia se mudado para as cercanias do Morro da Mangueira e foi lá, nos seus becos e botequins, que ele aprendeu a ser o Carlinhos Reco-Reco, um sambista performático que encantaria plateias do mundo todo. E ficaria eternamente ligado a sua escola de samba do coração.

Antes, porém, serviu por oito anos a Aeronáutica, onde reforçou as noções de disciplina e organização que adotaria na vida pessoal – exatamente o contrário de seu personagem cômico.

Originais

Barreto foca a maior parte das quase 500 páginas do livro na fase menos conhecida da carreira de Mussum: a de músico nos grupos Os Sete Modernos do Samba e Os Originais do Samba. As duas formações conseguiram boa projeção nacional e internacional, em especial no México.

Sua faceta mais famosa, a de humorista de tevê, começou na primeira versão da Escolinha do Professor Raimundo, de Chico Anysio (1931-2012), ainda nos anos 1960. Logo, foi convidado por Dedé Santana para completar, ao lado de Renato Aragão (o Didi Mocó), e Zacarias (1934-1990) o quarteto Os Trapalhões. E o resto é história.

Com o grupo, Mussum estrelou 28 filmes que bateram sucessivos recordes de bilheteria. Na televisão, o auge da trupe de comediantes chegou a conquistar uma audiência de 80% dos televisores ligados no país nas décadas de 1970 e 1980.

A marca do personagem Mussum era um humor politicamente incorreto, que não teria espaço no entretenimento moralista e patrulhado da atualidade. O personagem ora bebia cachaça ("mé") entusiasticamente, ora se deslumbrava com uma bunda de mulher ("forévis").

Escrito com a anuência da família de Mussum, o livro não fala de temas considerados tabu, como o pai ausente do artista, além de ser um tanto condescendente com o alcoolismo crônico do comediante. Mas, ainda assim, a obra faz um retrato necessário de um artista e homem "adorável", como define seu parceiro Dedé Santana.

Trajetória

Saiba como o "cabo Fumaça" virou o comediante mais amado do Brasil:

1941 – Antonio Carlos Bernardes Gomes nasce no mês de abril, no Morro da Cachoeirinha, no Rio de Janeiro.

1954 – Aos 13 anos, se matricula no colégio interno da Fundação Abrigo Cristo Redentor, faz curso profissionalizante de mecânico e se e torna torcedor fanático do Flamengo.

1960 – Aos 18 anos, ingressa na Força Aérea Brasileira. Brincalhão e extrovertido se torna o popular "cabo Fumaça" e monta os primeiros grupos de samba.

1963 – Estreia na carreira musical tocando reco-reco e cantando no conjunto Os Modernos do Samba. O grupo acompanha a cantora Elza Soares em boates cariocas nas primeiras apresentações. A banda faz as primeiras excursões internacionais.

1967 – Estreia na televisão, participando da Escolinha do Professor Raymundo, de Chico Anysio, na TV Tupi. Ganha o apelido Mussum do ator Grande Otelo, em referência ao peixe negro e escorregadio.

1971 – Já com o nome de Originais do Samba (desde 1968), sua banda atinge o auge do sucesso com grandes vendas e o primeiro lugar no Festival Internacional da Canção, com a música "Lá Se Vão Meus Anéis", de Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro.

1973 – A convite de Dedé Santana, passa a integrar o grupo Os Trapalhões, do qual faz parte pelo resto de sua vida. Com o grupo, estrela 28 filmes que arrastam multidões aos cinemas. Na tevê, foram 21 anos de programas de grande audiência na Rede Globo.

1994 – Mussum morre em São Paulo, no dia 29 de julho, aos 53 anos, dez dias após ter feito um transplante de coração. Deixa quatro filhos.

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