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Livro

Pavões Misteriosos – 1974-1983: A Explosão da Música Pop no Brasil

André Barcinski. Três Estrelas, 256 págs., R$ 42.

Se há um gênero musical renegado no Brasil é o pop. Verdadeiro balaio de gatos, capaz de contar em seu eclé­tico time, em determinados momentos, com artistas tão distintos entre si quanto Gretchen e Gilberto Gil, poucos o levaram a sério – exceto, provavelmente, as gravadoras, que, se não convertiam sucesso de vendas e execução nas rádios em prestígio, faturavam alto oferecendo ao público o que realmente queria ouvir.

Enquanto há uma variedade expressiva de livros, entre biografias e obras mais amplas e de caráter panorâmico, sobre a era do rádio, a bossa nova, a MPB surgida a partir da era dos festivais nos anos 60, a Jovem Guarda, a Tropicália e o rock brasileiro da década de 80, o pop, como um filho bastardo, foi solenemente negligenciado.

Identificando essa lacuna no mercado editorial brasileiro, o jornalista e crítico André Barcinski resolveu mergulhar na produção musical brasileira entre os anos de 1974 e 1983, período em que houve uma verdadeira explosão de estilos.

Para escrever Pavões Miste­riosos, recém-lançado pela editora Três Estrelas, o autor ouviu 65 entrevistados, e fez ampla pesquisa com o propósito de resgatar capítulos renegados dessa música brasileira que cometeu o pecado de ser realmente popular. Reuniu um punhado de histórias muito saborosas.

O título é uma referência à conhecida canção do cantor e compositor cearense Ednardo, utilizada como tema de abertura da novela Saramandaia, de Dias Gomes, exibida pela Rede Globo em 1976. Barcinski dela faz uso como uma espécie de metáfora para falar de artistas que, embora muito conhecidos, foram relegados a um status de relativa desimportância. Salvo raras exceções, como Ney Matogrosso, Rita Lee e Jorge Ben.

O livro-reportagem de Barcinski prefere, em vez de aderir a rótulos já pré-estabelecidos, problematizar o conceito de pop, não o restringindo. Sem preconceitos, ele o estende e cria conexões entre artistas que, para alguns, não deveriam fazer parte do mesmo planeta. Em comum, eles têm o fato de realmente terem feito muito sucesso.

Esse critério da popularidade, inerente ao conceito que norteia o livro, faz com que eles dividam espaço ainda que em capítulos distintos. Estão lá os roqueiros Rita Lee (pós-Mutantes) e Raul Seixas, mas também o rei do brega Odair José. Não falta espaço para os ídolos fabricados, como Sidney Magal e Gretchen, e para representantes da música nordestina, entre eles os cearenses Fagner, Ednardo e Belchior e os paraibanos Zé Ramalho e Elba Ramalho. Um dos melhores segmentos de Pavões Misteriosos dedica-se aos "falsos gringos", cantores que tinham nomes americanos, gravavam em inglês, mas eram brasileiros.

Guilherme Arantes, que participou, ao lado de Barcinski, do lançamento de Pavões Misteriosos durante a edição deste ano da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), encerrada em 3 de agosto último, é citado como exemplo de um artista talentoso que, desde o início de sua carreira, fez uma opção consciente pelo pop. "Eu queria tocar no Chacrinha!", confessou.

Revelado pelo hoje clássico "Meu Mundo e Nada Mais", que se tornou sucesso ao ser incluído na trilha sonora da novela Anjo Mau (de Cassiano Gabus Mendes), em 1976, Arantes teve dezenas de hits e, apesar de ter sido gravado por nomes importantes da MPB, como Maria Bethânia e Elis Regina, nunca teve medo de rótulos. "Fui muito xingado pela crítica, o Tarik de Souza [do Jornal do Brasil] detonava tudo o que eu fazia. Foi só quando a Elis fez sucesso com ‘Aprendendo a Jogar’, que eu passei a ser visto de forma diferente", contou em Paraty.

Outro nome que merece atenção especial é o inglês Richard David Court, conhecido no Brasil como Ritchie. Ele vendeu, em 1983, 1,2 milhão de cópias do seu álbum de estreia, Voo de Coração, e emplacou megahits como "Menina Veneno".

Segundo o livro, o artista, contratado da CBS, a mesma gravadora de Roberto Carlos, teria feito o Rei agir nos bastidores para sabotá-lo dentro do selo. Um rumor nunca totalmente comprovado, apesar de um radialista ter garantido a Ritchie ter recebido da gravadora dinheiro para não executar "A Mulher Invisível!", carro-chefe de seu segundo LP. O pop tem dessas coisas.

A curiosa história dos "falsos gringos"

Sandro Moser

Em meio à ascensão da música pop nacional, um fenômeno curioso tomou de assalto as paradas de sucesso e parte da produção fonográfica brasileira: o dos "falsos gringos".

Um capítulo do livro Pavões Misteriosos conta a história desses artistas, que cantavam músicas e versões em inglês e usavam pseudônimos para parecerem astros estrangeiros na primeira metade da década de 1970.

Fábio Jr., por exemplo, usava o nome de Mark Davis ou Uncle Jack; Jessé foi Tony Stevens, Ivanilton de Souza ficou conhecido como Michael Sullivan e Dudu França virou Dave D. Robinson.

Segundo Barcinski, o fenômeno dos "falsos gringos", embora execrado pela crítica de então, serviu para indicar o estágio de desenvolvimento da indústria dos discos no país. "Executivos sentiram que o público gostava cada vez mais da música pop internacional e passaram a criar produtos para este consumidor", aponta. Além disso, canções estrangeiras não precisavam passar pela censura.

Um público com dificuldade de acesso à informação e com poucos falantes de inglês fechava o cenário. Muitas vezes, as letras das canções eram rimas sem sentido e a pronúncia das palavras, em alguns casos, incompreensível. Nada disso impedia que os "falsos gringos" tivessem bastante sucesso, vendendo muitos discos, participando de trilhas de novelas e fazendo shows pelo Brasil.

Além disso, esses cantores se apresentavam em clubes de elite nas capitais do país. "Para estes jovens endinheirados, a música de Odair José ou Roberto Carlos era a música que as empregadas deles ouviam", aponta Barcinski.

Entre os "falsos gringos", o mais famoso foi o carioca Maurício Alberto Kaiserman. Bem nascido e bonitão, tinha integrado bandas de rock e passou algum tempo estudando nos Estados Unidos. Quando voltou ao Brasil, tentou carreiras paralelas, cantando em português com seu nome verdadeiro, e em inglês com o nome de Morris Albert.

Em 1974, a gravação da balada "Feelings" chegou ao sexto lugar das paradas americanas e rendeu ao falso gringo três indicações ao Grammy.

Trini x Prini

A onda dos falsos gringos, ainda que tenha crescido naquele período, era coisa antiga no país. No início da década anterior, vários artistas tinham feito carreira imitando astros estrangeiros. O caso mais inusitado aconteceu em 1964. Naquele ano, o cantor de origem mexicana Trini Lopez estourou no mundo todo com canções como "If I Had a Hammer" e "La Bamba".

Este disco (compacto) sairia no Brasil pela gravadora Reprise, porém, o selo RGE já tinha se antecipado e lançado, um mês antes, um disco com as mesmas canções. O nome do cantor, porém, era Prini Lorez, pseudônimo de José Gagliardi Filho, um roqueiro do bairro da Pompeia, reduto artístico em São Paulo. Prini Lorez faz shows até hoje com o repertório de Trini Lopez.

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