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Livro

Marés de uma trama irresistível

Jovem escritora justifica e comprova o porquê de ter recebido tantos prêmios recentemente

Em seu segundo romance, Tatiana Salem Levy confirma que é um dos grandes talentos da nova geração de escritores brasileiros | Pedro Serápio/Gazeta do Povo
Em seu segundo romance, Tatiana Salem Levy confirma que é um dos grandes talentos da nova geração de escritores brasileiros (Foto: Pedro Serápio/Gazeta do Povo)

Há escritores que são ótimos contadores de histórias, mas, finda a leitura, suas obras não colam na memória. Alguns poucos autores, no entanto, conseguem fazer com que suas narrativas continuem a ecoar, viajando por muito tempo na cabeça de seus leitores. Tatiana Salem Levy pertence a esse seleto grupo de criadores.

Depois de arrancar elogios da crítica, vencer o Prêmio São Paulo de Literatura, na categoria de autor estreante, e ficar entre os finalistas do Jabuti com seu primeiro romance, A Chave da Casa (2008), a jovem escritora, de 32 anos, reafirma esse raro talento em seu novo – e desconcertante – livro, Dois Rios.

O adjetivo desconcertante é usado aqui pelo efeito ao mesmo tempo sedutor e intrigante que se instala no leitor à medida que a narrativa avança. No centro da trama estão os gêmeos Joana e Antônio, inseparáveis na infância, sobretudo quando passavam as férias na localidade que dá título ao romance, situada na idílica Ilha Grande, litoral do estado do Rio de Janeiro.

Às portas da adolescência, a traumática e súbita morte do pai, um médico engajado e filho de uma família da classe média carioca, aos poucos cria uma fenda entre Joana e Antônio, falha que não cessa de se alargar com o passar dos anos. O motivo, um dos mistérios que o romance esconde em suas 220 páginas, aos poucos se revela, mas nunca é inteiramente explicado, porque encontra-se latente em memórias recalcadas pelo inconsciente dos personagens. E é essa a grande qualidade de Dois Rios– e da literatura envolvente, sensorial e precisa de Tatiana.

Já adultos, os gêmeos mal se falam. Ela vive com a mãe, Aparecida, uma mulher de origem mais simples, que, após a morte do marido, desenvolve um transtorno obsessivo compulsivo, doença que a mantém muito presa à casa – e, de certa forma, também aprisiona Joana. Antônio, ao se tornar adulto, segue em direção oposta. Desgarra-se e cai no mundo como fotojornalista.

A vida da família se altera de novo quando entra em cena a francesa Marie-Ange, uma turista da Córsega com quem Joana se envolve afetivamente e que vai revolucionar sua vida, fazendo-a primeiro enfrentar seus fantasmas, retornando a Dois Rios, aonde não voltava desde a morte do pai, há 21 anos. Depois poderá levá-la embora.

Como tem no centro ne­­vrálgico de sua narrativa a ideia do duplo, representada pelo casal de gêmeos – iguais e diversos, a começar pelo fato de serem um homem e uma mulher –, o impacto de Marie-Ange (Maria-Anjo, em português) não diz respeito apenas a Joana, com se pensa a princípio, mas também a Antônio. Essa conexão se dá de forma insólita, quando uma mesma parte da trama parece ser recontada de outra perspectiva, provocando um intencional e benvindo estranhamento na cabeça do leitor. Realismo mágico? Artifício estilístico? Ou seria um acontecimento real da trama que, de tão improvável, insistimos em duvidar?

Há em meio essa teia de emoções, que vem e vai no tempo, costurando o presente com pistas lançadas no passado dos personagens, um elemento onipresente: o mar. Ele está na Praia de Copacabana, onde moram Joana e Aparecida e o encontro com Marie-Ange se dá. Também cerca a Ilha Grande, sede da antiga penitenciária coabitada por presos comuns e políticos durante a ditadura militar, e onde Dois Rios está encravada. E é elemento fundamental, senão definitivo, da paisagem da Córsega, onde acontecimentos-chaves da fascinante história criada por Tatiana ocorrem. Uma trama em marés nas quais é quase impossível não mergulhar de cabeça.

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