
O bacana do Massive Attack é que o grupo, diferente de tantos outros, não se revolta contra o termo que o consagrou. Como disse Daddy G em recente entrevista ao O Globo, o nome trip-hop ainda se aplica ao seu som - nas suas próprias palavras, "viajante". De fato, "Heligoland", o novo disco do Massive Attack, recém-lançado no Brasil, segue o mesmo caminho trilhado desde a assombrosa estreia da banda inglesa (de Bristol), em 1991, com "Blue lines". Quase sempre lento, totalmente hipnótico e ocasionalmente dramático, o disco parece a trilha sonora de uma longa e sufocante caminhada pelo deserto - ou pelas ruas do Rio de Janeiro atual, o que dá no mesmo.
A sensação (térmica?) é reforçada pela música que abre o disco, "Pray for rain", com a participação nos vocais de Tunde Adebimpe, do TV On The Radio. Não apenas pelo título, mas também porque ela dá a leve impressão de ser uma versão, em slow-motion, de "Crazy", do Gnars Barkley. Mas é só um delírio melódico, que vai sendo dissipado ao longo dos seus quase sete minutos de duração, marcados por mudanças de ritmo e percussões esparsas.
Já a faixa seguinte, "Babel", é conduzida por uma espécie de drum'n'bass desacelerado e a voz de Martina Topley Bird narrando, como num transe, uma história de amor nonsense ("Alucinando, perseguindo, mudando, correndo"). É óbvio que Daddy G e seu parceiro, 3D, andam, como sempre, consumindo produtos agrícolas fortíssimos.
Isso, talvez, explique o fato de a banda ter levado sete anos para produzir um novo disco de inéditas. Segundo Daddy G, esse tempo foi necessário para que todos respirassem (ou expirassem?). Foi o tempo também para que a sua melancolia musical fosse levada adiante por gente como Burial, o soturno e genial produtor de dubstep.
Quinto disco dos massivos, "Heligoland" é o sucessor direto do irregular "100th window", quase um trabalho solo de 3D, já que Daddy G tinha deixado, momentaneamente, a banda. O Massive Attack tem dessas coisas: embora tenha nascido a partir de um coletivo, a equipe de som Wild Bunch, e por isso trabalhe com muitos convidados em cada disco, seu núcleo sempre foi instável. Desde o começo, seus fundadores - Daddy G, 3D e Mushroom - viveram entre muitos tapas e poucos beijos, até que o último pegou o boné, em 2000, e foi assustar outra freguesia.
Menos mal que o som da banda sempre foi neurótico e essas brigas internas nunca pareceram alterar a sua essência. Estranho seria se o Massive Attack aparecesse com um disco "feliz", cheio de hits e a participação de Lady Gaga e Shakira.
Nomeado a partir de um arquipélago de mesmo nome, localizado no Mar do Norte, "Heligoland" não corre esse perigo. As participações especiais do disco não chegam a ser inesperadas: além de Tunde e Martina, lá estão o reggaeman Horace Andy, Damon Albarn (Blur, Gorilazz), Hope Sandoval (cantora do Mazy Starr), Adrian Utley (guitarrista do Portishead) e o saudoso Jerry Fuchs (ex-The Juan McLean), sem contar o produtor brasileiro Gui Boratto, que assina o remix de "Paradise circus", disponível apenas nas versões "deluxe" e vinil do disco. Com esse time, Daddy G e 3D seguem com as experimentações que sempre marcaram a história do Massive Attack. A melhor delas é "Splitting the atom", uma espécie de charme dark, um assustador groove, pontuado por teclados reggae e dividido entre as vozes de Horace Andy (o charm) e Daddy G (o dark). Como uma Vandinha Adams da música pop, mesmo quando tenta ser alegre, o Massive Attack, esse mal-encarado, não consegue sorrir direito.







