
Coisa mais fácil do mundo é descobrir as obsessões de Xico Sá. Pega-se uma dezena de suas crônicas, já reunidas em compilações como Modos de Macho & Modinhas de Fêmea e Chabadabadá, e tem-se lá os mesmos temas: mulher, masculinidade, um pouco de futebol, cultura brega e vida nordestina. Este último foi o substrato buscado na memória afetiva para compor o romance Big Jato, livro que tem como personagem principal a região do Cariri, no Ceará, terra-natal do escritor e colunista da Folha de S. Paulo.
Ambientado na década de 1970, o livro alterna dois focos narrativos: o primeiro, um menino curioso e inteligente cujo pai é dono do caminhão batizado como Big Jato, destinado a limpar as fossas sanitárias da pequena vila de Peixe da Pedra. O segundo, seu tio, um beatlemaníaco com a fama de "veado, maconheiro e vagabundo, nessa ordem", a antítese do irmão trabalhador e com visionário empreendedorismo. Os limites entre realidade e ficção se perdem para Sá. "Os personagens são uma ficção, mas, se for atrás de todos, é fácil achá-los na vida real. Peguei muito as memórias da minha infância no Crato e a minha mudança para Juazeiro do Norte e Recife, posteriormente", conta.
Essencialmente, Big Jato é isto: a crônica generalista de todo interiorano que se muda para uma cidade grande. "O ano em que se passa o livro, 1974, é um ano de grande migração para a região, e quis falar um pouco desse sentimento. Todo mundo nasce um pouco beatnik, em constante viagem", conta o escritor, que criou o recorte memorialístico de Big Jato a partir de suas revisitas ao local, depois de mais de duas décadas morando longe. Obviamente, a distância temporal transforma as próprias lembranças em uma construção exótica. "Escrevi sim com um distanciamento, uma idealização da infância que acabou levando em si um pouco de sertanismo. Tinha horas em que eu ficava poético demais, e era preciso enxugar o texto, porque o sertão não combina com essa linguagem mais enfeitada. Era como se Graciliano Ramos estivesse no meu ombro dizendo: esse texto está muito poroso", brinca.
Ainda assim, o escritor afirma que as partes mais bizarras são todas verdades, resultado de uma "quase apuração jornalística": um universo formado por campanhas de marketing pouco usuais, leilões de virgens e contrabando de fósseis. "Até o (cineasta Steven) Spielberg criar um imaginário coletivo, não dávamos a menor importância para dinossauros e fósseis, que foram vendidos a preço de banana para compradores europeus. Pra se ter uma ideia, quando a gente jogava uma pelada, o gol era demarcado com pedras fossilizadas", lembra.
No meio do caminho entre um romance e memórias ficcionais, Big Jato permanece, contudo, com a forte verve cronista de Xico Sá, embebida na adjetivação e no ritmo das antigas locuções radialistas. "Eu era fissurado em rádio, cheguei a fazer alguns poemas para um programa quando era adolescente. A oralidade no sertão é muito importante, e ela é mais barroca e adjetivada do que a escrita, e isso contribuiu para o meu tom hiperbólico", afirma.
Big Jato está sendo adaptado para o cinema por Claudio Assis, com argumento do próprio escritor, o que, definitivamente, mudou o curso do livro: "Quando soube que ele ia ser adaptado, trabalhei nele um pouco mais para criar imagens mais concretas do que jogos de palavras". Na construção, Xico Sá entendeu melhor o recorte histórico das memórias inventadas: "Percebi que havia ali, na figura do garoto, o choque entre dois mundos. O da masculinidade bruta do sertão de seu pai, que eu atribuo ao personagem do Macho-Jurubeba em minhas crônicas, e o do cosmopolitismo emergente no sertão de seu tio, com a entrada da cultura estrangeira de grandes filmes e músicas". O fim do sertão como o conhecíamos.







