
A fórmula para uma história de crime e mistério é simples: há um crime e há um mistério a ser resolvido. Entretanto, Hamlet estava plenamente adequado ao dizer que há mais coisas entre o céu e a terra do que supõem nossos desejos de domínio filosófico e narrativo.
De Edgar Allan Poe a Stephen King, muitos autores se depararam com os dilemas do romance policial e enfrentaram as necessidades que o gênero exige, como domínio profundo das tessituras narrativas, organização dos elementos de conflito e, sobretudo, a capacidade básica de imergir o leitor quando acertam, se tornam fenômenos culturais.
É nesta casta de escritores populares e reconhecidos pela crítica que se encontra Georges Simenon (1903-1989), criador do comissário Maigret, um dos mais interessantes personagens de investigação da literatura, com obra gradativamente relançada pela Companhia das Letras.
Simenon vendeu mais de 500 milhões de exemplares em todo o mundo. Recentemente, seu filho, John Simenon, responsável pela divulgação da obra do pai, esteve em Curitiba, no projeto de leitura compartilhada Conversa entre Amigos, para um bate-papo sobre Pietr, o Letão, o primeiro romance protagonizado pelo comissário da Polícia Judiciária francesa.
Motivações
Através de Maigret, Simenon reinventou as perspectivas dos romances policiais, fugindo das pistas e resolução das mortes para buscar entender as motivações. Para tanto, o belga oferece descrições psicologizantes de personagens e compartilha suas dúvidas existenciais com o leitor, como em O Enforcado de Saint-Pholien, que investiga o enigmático suicídio de um homem: Qual a relação de tudo isso com um enforcado balançando na cruz de uma igreja? Com uma profusão de enforcados? Com florestas cujas árvores não carregavam outros frutos senão enforcados?
Em O Cavalariço da Providence, Maigret questiona o estrangulamento de uma mulher de vida noturna animada e se perturba com a apatia dos suspeitos. "Dessa vez, no entanto, a calma de seu interlocutor o exasperou. E essa calma parecia ser a palavra de ordem a bordo. Desde o marujo Vladímir à mulher que acabavam de arrancar do sono, todos tinham o mesmo olhar indiferente ou anestesiado, parecendo eternamente de ressaca."
Os romances de Simenon, acima de seu formato, são imbuídos de compaixão, apesar de um pessimismo de raiz. Em O Enforcado, por exemplo, ele quase fecha o jornalismo: "Quando ocorre um incêndio, os espectadores desejam involuntariamente que ele dure, que seja um belo incêndio..."








