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Artigo

Milagres de personalidade

Keira Knightley é Elizabeth Bennet na versão cinematográfica de Orgulho e Preconceito, dirigida por Joe Wright |
Keira Knightley é Elizabeth Bennet na versão cinematográfica de Orgulho e Preconceito, dirigida por Joe Wright (Foto: )

Em 16 de dezembro de 1775, na pacata vila de Steventon, no condado de Hampshire, interior da Inglaterra, nasce essa que viria a ser a mais sagaz observadora da sociedade inglesa do período da Regência.

É uma verdade universalmente aceita que Jane Austen é uma das maiores romancistas de todos os tempos. Ou, assim deveria ser reconhecida, porque há ainda muitos que a associam à literatura cor-de-rosa, feita sob encomendada para as fãs de O Diário de Bridget Jones (1996). De fato, Bridget Jones toma emprestado de Orgulho e Preconceito, o mais conhecido romance de Austen, a linha geral do enredo, características e mesmo o nome de algumas personagens. Mas as semelhanças param por aí. A obra de Austen, apesar de pequena – são apenas seis romances completos –, sobreviveu ao teste do tempo; nela se encontram qualidades raras, que a tornam comparável às peças de William Shakespeare: precisão da linguagem, ironia, espírito cômico e desenho cuidadoso e, quase sempre, satírico das personagens e da sociedade em que vivem. Não seria justo exigir tanto de Bridget Jones. Jane Austen é um prazer cultivado.

Em 16 de dezembro de 1775, na pacata vila de Steventon, no condado de Hampshire, interior da Inglaterra, nasce essa que viria a ser a mais sagaz observadora da sociedade inglesa do período da Regência. Por 25 anos, Jane vive intensamente a vida social de sua cidade, experiência que se reflete de maneira exemplar em suas primeiras obras: Razão e Sensibilidade, Orgulho e Preconceito e Abadia de Northanger.

O que surpreendente já nesta primeira leva de romances é a inventividade e versatilidade da autora ao experimentar diferentes técnicas e abordagens narrativas: Razão e Sensibilidade se organiza como um debate; Orgulho e Preconceito é um romance; e Abadia de Northanger constitui uma sátira sobre o próprio gênero do romance e seus leitores. Todas as três obras se afastam da fórmula literária mais apreciada à época, o melodrama romântico, e nelas fica evidente o espírito cômico com que são retratadas as personagens e a visão satírica sobre a sociedade hierarquizada em que vivem. Como escreve Austen em Orgulho e Preconceito: "Para que vivemos senão para divertir nossos vizinhos e, em troca, nos rirmos deles?".

É preciso enfatizar que as qualidades da literatura de Austen são tão mais surpreendentes quando lembramos que ela tinha apenas 20 anos – a mesma idade de Elizabeth Bennet, a heroína de Orgulho e Preconceito – quando escreve a primeira versão deste romance, ainda com o título provisório de Primeira Impressão. Seu pai, o reverendo George Austen, envia o manuscrito a um editor de Londres, se oferecendo para custear a impressão; o editor devolve o manuscrito sem abrir o pacote. Razão e Sensibilidade, escrito um ano antes, também ficaria inédito por mais de 15 anos e Abadia de Northanger só seria publicado postumamente.

Para uma autora que viria a falecer com apenas 41 anos, o intervalo entre a composição e a publicação dessas primeiras obras é digno de nota e, em parte, explica por que Jane só voltaria a escrever aos 35 anos. Fatores de ordem familiar também contribuiriam para o seu silêncio literário: em 1801, com a aposentadoria do pai, a família se muda para Bath; Jane se ressente da mudança e mais ainda das constantes trocas de residência que se dariam nos anos seguintes. Em 1802, ela aceita a proposta de casamento feita por Harris Bigg-Wither, vizinho de Hampshire e herdeiro de uma grande propriedade; para a consternação da família e do noivo, no dia seguinte, Jane decide permanecer solteira. Em meio a viagens, nascimentos, doenças e mortes, Jane se dedica a familiares e amigos, e não encontra tempo ou disposição para escrever. Falta-lhe, na expressão de Virginia Woolf, "um teto todo seu" e o conforto de uma rotina diária. Com a morte do pai, em 1805, sua situação financeira se agrava; não há mais a perspectiva de um casamento e da proteção de um marido. Jane, a mãe e a irmã Cassandra vivem, alternadamente, na casa de vários parentes, até que, em 1809, o irmão mais velho, Edward, decide lhes emprestar um pequeno chalé em Chawton, onde fixam residência permanente. É nesse momento que Jane volta a ter um lar e readquire a tranqüilidade necessária para se dedicar à literatura.

Logo, ela consegue publicar Razão e Sensibilidade (1811) e, a seguir, Orgulho e Preconceito (1813). A partir daí, não pára mais de escrever. Torna-se uma autora de sucesso e consegue ganhar o próprio pão, ainda que, nas capas de seus livros conste apenas a indicação de que foram escritos "por uma dama".

Em 1814 aparece Mansfield Park e, no ano seguinte, Emma, obra que Austen, por sugestão do príncipe regente, seu leitor e admirador, lhe dedica. Persuasão, escrito entre 1815 e 1816, só viria a ser publicado postumamente, em dezembro de 1817, junto com Abadia de Northanger.

Recentemente, o crítico Harold Bloom classificou as personagens de Austen como verdadeiros "milagres de personalidade". Para concordar com Bloom, basta lembrar a carta na qual Jane confidencia à irmã que, quando visita galerias de arte, mais do que as pinturas, o que lhe interessa é o espetáculo da natureza humana: "Minha predileção por homens e mulheres sempre me inclina a prestar mais atenção às pessoas do que aos quadros".

Se o romance inglês nasce no século 18, com Daniel Defoe e Samuel Richardson, com Jane Austen o gênero amadurece ao retratar de modo realista personagens comuns em situações corriqueiras. Não é apenas a descoberta do amor o que importa em seus romances, mas, sim, a observação sutil das motivações secretas e das vaidades escondidas, e o jogo delicado entre sentimentos e condutas socialmente aceitas; enfim, é toda a complexa dinâmica das relações humanas que está posta, de maneira exemplar, na obra dessa precursora do romance moderno.

Liana Leão é professora do Departamento de Letras Estrangeiras Modernas da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP)

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