
"Uma mulher em especial, se tiver o infortúnio de algo saber, deve escondê-lo o tanto quanto puder", escreveu Jane Austen (1775-1817), não sem ironia, a certa altura do romance gótico A Abadia de Northanger, publicado postumamente em 1817.
O contexto histórico que originou semelhante aforismo é o mesmo que faria com que a própria autora se escondesse sob uma assinatura anônima, by a lady (ou "por uma dama"), ao publicar seu primeiro livro, Razão e Sensibilidade (1811).
A passagem de dois séculos tornou distante a desfavorável condição feminina sob a qual a mais jovem das senhoritas Austen assim como suas contemporâneas vivia, confinada ao espaço privado do lar e sujeita a um casamento como garantia de sustento e aceitação social. A obra da autora inglesa, contudo, não se perdeu na História. Tanto que é mais uma vez inspiração para o cinema atual, em dois filmes lançados no ano passado, que chegam com atraso ao país.
O primeiro deles, O Clube da Leitura de Jane Austen (de Robin Swicord), lançado em junho, diretamente em DVD, investe no universo literário da autora para tratar de dramas amorosos contemporâneos. É mais arriscada a proposta de Amor e Inocência (Becoming Jane ou "Tornando-se Jane", em tradução livre), cujo lançamento em DVD está previsto para este segundo semestre. O longa-metragem de Julian Jarrold, protagonizado por Anne Hathaway (de O Diabo Veste Prada), é uma biografia romanceada da juventude da autora inglesa. Arriscada, porque são raras as informações de fontes confiáveis sobre a curta vida da escritora que nunca se casou. O que não impede o roteiro de alçar Tom Lefroy (personagem de James McAvoy) de quem, em cartas à irmã Cassandra, Jane fala como um flerte sem maiores conseqüências à posição de grande amor da sua vida.
A comovente história de amor não faz jus à vida e à obra da moça retratada. "Na realidade, Jane Austen não é uma escritora romântica. No auge do romantismo, a crítica foi reticente na apreciação de sua obra. O romance entre Elizabeth e Darcy (Orgulho e Preconceito, de 1813) não é tempestuoso, em que os amantes se entregam a excessos de sentimento. Prevalece a crença neoclássica na ordem e disciplina, o apoio a valores e normas tradicionais. A razão prevalece sobre o sentimento, o que é ainda mais evidente em Razão e Sensibilidade", explica a professora Mail Marques de Azevedo, doutora em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês pela Universidade de São Paulo (USP).
O gênio da autora, por vezes escondido sob uma superficial aparência folhetinesca dos enredos, vem da aprofundada análise de caráter que faz das suas personagens, ao mesmo tempo que disseca as relações pessoais e sociais da época. Tudo isso é construído na forma de enredos tão irônicos quanto a linguagem que usa, impregnada de perspicácia e sutilezas.
"Quem nunca se apaixonou como Marianne, ou precisou mudar drasticamente de vida como as Dashwood (Razão e Sensibilidade)? Quem não conhece um bajulador profissional como o senhor Collins ou uma arrogante como Lady Catherine de Bourgh (de Orgulho e Preconceito)? Ou imaginou histórias mirabolantes como Catherine Morland (de A Abadia de Northanger)? Quem não gostaria de ter a habilidade e rapidez das respostas de Elizabeth Bennet em situações que nos afrontam?", propõe a artesã de livros Raquel Sallaberry Brião, autora de uma das poucas fontes online em português sobre a escritora, que não conquistou no Brasil a mesma popularidade de que desfruta em outros países, como a Argentina, onde é tema de uma variedade de clubes de leitura.



