
São Paulo - Se Merce Cunningham (1919-2009), morto na noite de domingo passado, de causas naturais, em Nova York, tivesse apenas revolucionado a dança moderna como o coreógrafo que descentralizou o espaço do palco, subvertendo a perspectiva renascentista, já estaria de bom tamanho. No entanto, Cunningham fez muito mais. Revelou para o mundo artistas como os pintores Robert Rauschenberg e Jasper Johns, além de ter lançado aquele que é considerado o principal compositor experimental nascido nos EUA, John Cage (1912-1992), seu companheiro por muitos anos. Os dois se conheceram quando Cunningham ainda estudava na Cornish School of Performing and Visual Arts de Seattle, onde Cage tocava como pianista acompanhante e o coreógrafo ainda aprendia a técnica da coreógrafa Martha Graham, antes que essa o convidasse pessoalmente para integrar a sua companhia de dança.
Cage foi muito importante na vida e na carreira de Cunningham. Ambos tinham certa reserva ao derramado emocionalismo de Martha Graham. O coreógrafo queria descobrir o que era, de fato, o movimento, qual a autonomia da dança em relação à música. Cage, igualmente rebelde, não queria subordinar suas composições a gestos expressionistas ou apenas ilustrar piruetas. Ambos sabiam que a dança era muito mais. Queriam, enfim, trazer para o palco todas as artes, da performance à pintura, passando pelo cinema. E foi isso que fizeram. Além dos nomes já citados, Cunningham teve como colaboradores cineastas como Stan Van der Brook e Charles Atlas.
O primeiro grande colaborador visual de Cunningham foi Rauschenberg (1925-2008), que se tornou o primeiro conselheiro artístico de sua companhia em 1954, posição mantida até 1964. Em 1967, assumiu seu posto Jasper Johns, um dos principais representantes da arte pop e hoje, aos 79 anos, considerado o maior pintor vivo norte-americano. Os dois trabalharam com Cunningham justamente no período mais criativo da companhia e também o mais rico da cultura americana, que via nascer não só a arte pop como os movimentos de contracultura, o novo cinema de Scorsese, Coppola, Cassavetes e companhia.
Essa história começou, porém, no verão de 1953, quando Cunningham e Cage foram convidados para dar aulas no Black Mountain College, uma espécie de Bauhaus americana onde os professores eram arquitetos como Buckminster Fuller e pintores como Josef Albers além de outros artistas de diferentes tendências como Willem de Kooning e Rauschenberg. O clima cultural da época contribuiu. Rauschenberg levou para o palco pneus velhos, pilhas de jornais e suas "collages", obrigando os dançarinos de Cunningham a interagir com a sucata. Cage, então já fascinado pelo I Ching, convenceu Cunningham a tentar coreografias baseadas em números randômicos. O aleatório foi, então, incorporado à dança na mesma época em que Cage passou a usar os hexagramas do oráculo chinês para compor, integrando som ambiente e música.
Rauschenberg criou cenários incríveis para coreografias de Cunningham, entre eles os painéis pintados de Minutiae (1954) e um conjunto de caixas brancas para "Noturnos" (1955). Coube, porém, a Jasper Johns a tarefa de traduzir para o palco a mais difícil obra do artista conceitual Marcel Duchamp (1887-1968), o "Grande Vidro", sete gigantescas estruturas infláveis reproduzindo imagens dessa peça hoje pertencente ao Museu da Filadélfia. A obra original é constituída por dois painéis de vidros emoldurados em alumínio, em que a parte superior se contrapõe à inferior como a natureza feminina à masculina. Johns assumiu a tarefa de "traduzir" o hermético Duchamp e, dois dias antes da estreia de "Walkaround Time" (1968), quase desistiu, alegando que a estrutura iria desabar sobre os bailarinos.
Cunningham não pararia de usar infláveis. No mesmo ano viu uns travesseiros do pop Andy Warhol, que virariam a instalação de nuvens prateadas do cenário de "Rain Forest" (1968). Alguns dos travesseiros ficavam sobre o palco. Outros, enchidos com hélio, flutuavam e os bailarinos tiveram de aprender a técnica de lidar com eles sem perder a concentração nos movimentos.
Outros cenários utilizados pela companhia de dança de Cunningham viraram obras de arte disputadas pelo mercado. Os painéis de Rauschenberg usados em "Minutiae" e que eram transportados numa Kombi nas turnês pelos EUA foram parar em Paris, comprados por um colecionador na Suíça. Cunningham, irônico, riu quando soube da transação. Não parou de experimentar até a sua morte. Ontem, para azar da dança.







