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Visuais

No silêncio do ateliê

Solar do Barão abre hoje retrospectiva da artista Guilmar Silva, falecida no início de 2008. Exposição inclui o lançamento de um livro e vídeo com depoimentos de artistas, críticos e amigos

Retrospectiva é um passeio pelas diversas fases da obra de Guilmar Silva | Imagens/Acervo da família
Retrospectiva é um passeio pelas diversas fases da obra de Guilmar Silva (Foto: Imagens/Acervo da família)
A artista também atuou como coordenadora de Artes Visuais da Fundação Cultural |

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A artista também atuou como coordenadora de Artes Visuais da Fundação Cultural

Pouco antes de morrer, no dia 10 de fevereiro do ano passado, vítima de leucemia, aos 65 anos, a artista plástica Guilmar Silva deixou subentendido à amiga Estela Sandrini seu desejo de deixar sua história registrada em um livro. "Ela me contou toda a vida dela", conta.

O recado foi captado com extrema sensibilidade. Após sua morte, a também artista Teca Sandrini inscreveu o projeto na Lei Municipal de Incentivo à Cultura – a mesma que Guilmar ajudou a remodelar como coordenadora de Artes Visuais da Fundação Cultural de Curitiba (leia quadro). Obtida a aprovação, juntou-se aos filhos da artista, a administradora Fabiana Wendler e o designer Sílvio Silva, para pôr mãos a obra.

Após um ano de trabalho intensivo, o trio apresenta ao público que for a Solar do Rosário até 5 de julho uma grande exposição retrospectiva, um livro e um documentário. O evento tem início hoje, às 17 horas, com a conferência Ética e Estética nas Artes Plásticas, que terá a participação de Teca e dos críticos Fernando Bini, Maria José Justino, Jô Kawamura e Simone Landal.

A mostra, com curadoria de Teca e planejamento visual de Silva, narra a trajetória de Guilmar ao longo de oito salas do espaço municipal. As três salas com obras produzidas na década de 1980, "foram montadas da maneira como se expunha nos anos 80", explica Teca.

Outras quatro salas dão conta das fases subsequentes da artista: dos acrílicos produzidos nos anos 1990 até as obras da última exposição da qual participou, em 2004. "Ainda assim sobraram muitos trabalhos que não estão presentes", conta Teca.

Por fim, em uma sala idealizada pelo filhos de Guilmar – "suas obras mais importantes", diz Teca – há um documentário com depoimentos de artistas, críticos, amigos e familiares em meio a paredes preenchidas com trechos do diário da artista, a que Teca teve acesso. "Minha maior descoberta foi saber que ela, além de pintar, escrevia tão bem."

O ano em que passou remexendo "cada gaveta, cada caixinha, ferramentas, tintas, painel ou bilhete" do ateliê da amiga, com quem visitava exposições e chegou até a realizar algumas gravuras a quatro mãos, foi gratificante. "Aprendi muito no silêncio do ateliê dela."

Quando Fabiana lhe permitiu ler alguns pontos do diário da mãe, deparou-se com questões doloridas e até então pouco conhecidas para ela. "Guilmar descrevia muita dor, o que não percebíamos no seu dia-a-dia. Quando ficou doente, foi de uma bravura, a gente não via dor nela", lembra.

Artista na vida

"Ela foi artista na vida. Assim como escreveu seus diários, fez suas obras", diz Teca. Fabiana, que cresceu vendo a mãe pintar, lembra que os conflitos se refletiam diretamente em sua pintura. No começo de sua trajetória, Guilmar produzia paisagens urbanas abstratas, em tinta a óleo, que transmitiam uma grande angústia. "Havia um amontoamento de casas, o caos urbanos, o cidadão atormentado vivendo em grandes cidades, a falta de espaço".

Após uma intoxicação causada pela tinta a óleo, no início da década de 90, Guilmar adota a tinta acrílica, inserindo cor ao seu trabalho. "Com a crise no casamento, o azul, o amarelo, o vermelho gritante revelavam um alma atormentada. Mas, após a separação, ela inaugura uma nova fase, com tons mais claros, monocromáticos, traços leves, como se buscasse um caminho mais leve", diz a filha.

Estas e outras questões transparecem, ainda que de forma velada, na exposição de cerca de cem obras. "Como eu, Guilmar era de uma geração de artistas mulheres que passou por toda as transformações relacionadas às questões femininas", conta Teca.

No livro Ética e Estética de Guilmar Silva, que será lançado na abertura da exposição, Teca escreve um texto introdutório no formato de uma carta à amiga em que narra como foi passar um ano em meio às suas obras. "Como você produziu! Não me refiro apenas à quantidade, mas sobretudo à qualidade. Cada tela, cada desenho, cada pintura, cada obra sua tem uma história, um enredo, uma vivência, um sentido enfim", escreve.

O livro traz imagens e textos que falam sobre a trajetória artística e sobre o legado de 22 anos de Guilmar como agente cultural – fato que às vezes obscurecia o seu trabalho como artista. "Ela tinha um código de ética muito forte. Como funcionária pública sempre fez questão de não tomar partido disso para mostrar sua produção e valorizar o trabalho dos outros", diz Fabiana.

Serviço

Ética e Estética de Guilmar Silva. Solar do Barão (R. Carlos Cavalcanti, 533), (41) 3321-3242. Retrospectiva da artista paranaense Guilmar Silva (1943-2008). Abertura, dia 13, às 19 horas. 3ª a 6ª, das 9 às 12 horas e das 13 às 18 horas; e sáb. e dom., das 12 às 18 horas. Até 5 de julho.

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