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Nova edição do Nicolau reafirma sua importância

Referência do jornalismo literário brasileiro, o jornal ganha reedição fac-similar e joga luz sobre uma era da cultura local

 | Leila Pugnaloni/Reprodução
(Foto: Leila Pugnaloni/Reprodução)
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Nos dez anos em que circulou, entre 1987 e 1996, o suplemento cultural Nicolau foi um farol no caos da inteligência brasileira no período da redemocratização. O jornal editado em Curitiba alcançou tiragem imensa, manteve um grupo diversificado de colaboradores e apostou em um jornalismo caprichoso e artesanal, pautado pela reportagem, grandes entrevistas e espaço generoso às artes visuais e à poesia.

Caso raro de atuação conjunta do Estado com algumas das cabeças mais libertárias da cultura local, algo que dificilmente se repetirá, o jornal teve uma vida intensa, turbulenta e polêmica. Alguns dos principais colaboradores da equipe fundadora do veículo preferem não dar entrevistas sobre o período, revelando que ainda sobraram cicatrizes e histórias a serem contadas sobre o Nicolau.

Para o jornalista e editor Ben-Hur Demeneck, esta circunstância dá ao jornal uma aura de "lenda de fim-de-século", que pode ser desvendada agora, por uma geração que não pôde acompanhar sua circulação – a Secretaria de Estado da Cultura do Paraná (Seec) acaba de publicar uma edição fac-similar do Nicolau.

A reedição traz os 60 números do suplemento, acondicionados em três caixas projetadas pelo designer Osvalter Urbinati (Gazeta do Povo), depois de mais de dois anos de trabalho da equipe da Biblioteca Pública do Paraná (BPP). Com tiragem de 2 mil exemplares, a caixa com todas as edições será distribuída a todas as bibliotecas públicas do Estado, instituições culturais do Paraná e do Brasil e aos colaboradores do Nicolau.

A releitura do Nicolau permite um melhor entendimento sobre o fenômeno de um jornal bancado por dinheiro público, marcado pela qualidade editorial, e cuja projeção foi alavancada pela tiragem e pela distribuição gratuitas.

Tiragem

Durante sua trajetória, o Nicolau foi encartado em mais de 25 veículos de imprensa e chegou a ter mais de 20 mil assinantes. Com média de 76 mil exemplares em circulação, a sexta edição circulou com o número recorde de 162,5 mil exemplares.

"O grande diferencial que o jornal teve era a liberdade. Era financiado pelo Estado mas não se transformou em órgão de propaganda. A redação era autônoma. Tanto que publicávamos textos de opositores notórios, o que me causava alguns aborrecimentos", lembra o jurista René Dotti, à época secretário de Cultura.

Para ele, a qualidade artística do jornal era um reflexo do tempo em que ele foi concebido. "Havia um anseio pela liberdade, um período de formação da Assembleia Constituinte. Com os novos ares democráticos, a criatividade antes congelada, transbordou", afirma.

O Nicolau foi fruto de um esforço coletivo de Luiz Antônio Guinski, Joba Trindade, Wilson Bueno (1949-2010), Josely Vianna Baptista, Nelson Bond, Adélia Maria Lopes e muitos outros talentosos colaboradores, como Paulo Leminski (1944-1989), Jamil Snege (1939-2003), Manoel Carlos Karam (1947-2007) e Miltom Hatoum. A identidade visual do jornal virou referência no mercado editorial nacional.

O veículo publicava conteúdo jornalístico, como reportagens, resenhas de livros e entrevistas com grandes personalidades, como Jorge Luis Borges (1899-1986), Helena Kolody (1912-2004) e Luís Carlos Prestes (1898-1990).

"O Nicolau foi um momento importante do jornalismo literário do Paraná e do Brasil, tempos em que o ‘Deus Mercado’ ainda não era tão hegemônico e ainda havia inteligência e curiosidade no jornalismo cultural. Sinto orgulho de ter participado de sua história", diz o escritor lon­­­drinense Rodrigo Gar­­­cia Lopes.

Ruptura entre equipe mudou rumo do jornal

A história do jornal Nicolau foi marcada por uma cisão traumática entre a equipe original. No ano de 1989, depois da edição de número 26, o designer e produtor gráfico Luiz Antônio Guinski foi demitido.

Todo o "estado maior" da redação também se demitiu em solidariedade a Guinski, um dos idealizadores do projeto, até hoje tido como líder da equipe e um dos principais responsáveis pela estética do jornal. Apenas o editor Wilson Bueno foi mantido.

Polêmica

"Fosse ele o real comandante da equipe, teria saído com todos os demais. Um capitão não abandona a tropa no meio do ataque", ponderou o escritor e jornalista Jaques Brand, ex-colaborador do Nicolau em artigo publicado na Gazeta do Povo em maio.

No mesmo texto, Brand afirma que a ruptura não foi uma mera recomposição de equipe, pois o jornal "durante esta longa primeira fase – a fase, justamente, em que firmou-se como uma publicação respeitada nacionalmente – tinha ‘a cara do Guinski’, refletindo as convicções e as escolhas estéticas".

O ex-secretário da Cultura Rene Dotti revela que a decisão de demitir Guinski foi influenciada pelo próprio Bueno, que "não se sentia confortável em trabalhar com a antiga equipe e nos acenou com a possibilidade de uma mudança. Nós resolvemos apoiá-lo na ocasião".

Para Dotti, foi a direção dada por Bueno que fez o Nicolau alcançar a dimensão nacional e internacional conquistada pelo jornal.

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