
Rosario Tijeras tem uma maneira peculiar de matar. Depois de um beijo, tira da bolsa sua pistola e atira à queima-roupa na vítima. Mas agora foi Rosario a atingida. Internada em estado grave em um hospital de Medellín, Colômbia, Rosario está perto da morte que, aliás, nunca deixou de rondá-la. E é pela narração de Antonio, seu melhor amigo, que somos convidados ao seu mundo.
Segundo romance do escritor colombiano Jorge Franco, Rosario Tijeras teve uma carreira de sucesso por onde passou. Com a primeira edição esgotada em três dias na feira de livros de Bogotá, o livro atingiu o ponto em que seu criador confessa que Rosario ficou famosa ele não. O romance já foi traduzido em vários idiomas e, este mês, o selo Alfaguara lançou a tradução brasileira.
Ambientada na Medellín do final dos anos 80 época em que a violência atingiu níveis alarmantes, sob o poder dos cartéis de Cali e de Pablo Escobar , Rosario Tijeras é uma forma do escritor saldar uma dívida com sua cidade natal. "Queria escrever um romance sobre essa época que tivemos que viver, uma época difícil para todos os que moravam em Medellín. E quis contar essa história através de uma história de amor, que também é um tema do qual eu sempre gostei", revela Franco, em entrevista ao Caderno G.
Amor e morte são os dois pilares sobre os quais se sustenta a história de Rosario. Ao levar o tiro que a mandou ao hospital, "confundiu a dor do amor com a da morte". Mas logo tirou a dúvida. A Rosario que nos é apresentada, sempre pelo filtro nada imparcial de Antonio que nutre uma paixão secreta por ela , é, ao mesmo tempo, sexy, implacável e imperdoável. Seu sobrenome real ninguém conhece. "Tijeras" (tesouras, em espanhol) foi o apelido que recebeu aos 13 anos, depois de se vingar de um vizinho que a tinha estuprado.
"Eu estava lendo uma tese de mestrado sobre um tema bastante contraditório, que era o vínculo que havia entre a religião e o crime, basicamente nas mãos de pessoas jovens que pertenciam às quadrilhas do tráfico de drogas. Nessa tese, encontrei uma coisa que eu desconhecia, que era a presença de mulheres muito novas nessas quadrilhas, que participavam de uma forma muito violenta. Muitas delas carregavam vários mortos nas costas", conta Franco, sobre o processo de criação da personagem.
Nascida numa região marginal de Medellín, Rosario desde cedo se envolveu com chefes do tráfico, "aqueles que estão nos jornais", e conseguiu mudar de vida ou ao menos ter dinheiro para roupas e cocaína. Uma noite, conheceu Emilio e Antonio, jovens de classe média alta, que se tornariam respectivamente namorado e melhor amigo. O triângulo alterna momentos de relativa paz, com temporadas de grande consumo de drogas e os sumiços repentinos de Rosario, que sempre voltava com excesso de peso, graças ao hábito de comer compulsivamente depois de matar.
Jorge Franco faz parte de uma nova geração de autores latino-americanos que se distanciam do realismo mágico dos anos 60 e 70 de nomes como Vargas-Llosa, García Márquez e Cortázar e faz uma literatura mais urbana, marginal (leia reportagem na página 3). "Os autores da minha geração são muito urbanos simplesmente porque as cidades são os lugares onde vivemos, e nossas histórias se passam nessas cidades. E elas se tornaram todas muito parecidas", explica Franco, de quem García Márquez afirmou ser "um dos autores colombianos a quem eu gostaria de passar a tocha". Nada mal.
Rosario no cinema
A história foi transformada em filme em 2005, com direção do mexicano Emilio Maillé e trilha sonora do astro pop colombiano Juanes. O papel de Rosario foi vivido pela estonteante Flora Martinez, que encarnou o caráter explosivo da personagem. Jorge Franco, que estudou cinema em Londres antes de se dedicar à literatura, participou como colaborador e adaptou os diálogos à forma como se fala em Medellín. Seu livro seguinte, Paraíso Travel (ainda sem tradução para o português), também foi transformado em filme e está sendo editado. Atualmente, Franco trabalha na adaptação ao cinema de seu primeiro romance, Mala Noche, e na divulgação de seu livro mais recente, Melodrama, que está sendo traduzido para o português.
Serviço: Rosario Tijeras, de Jorge Franco (Tradução de Fabiana Camargo. Objetiva/Alfaguara, 155 págs., R$ 28,90). Leia a entrevista completa com o escritor no site www.gazetadopovo.com.br/cadernog.







