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Literatura

O avesso da vida

Jovem de apenas 20 anos bate autores experientes em edital da Funarte e vai receber R$ 30 mil para escrever seu primeiro romance

  • Irinêo Baptista Netto
O livro Mentiras, de Philip Roth, inspira o projeto de Felipe Munhoz |
O livro Mentiras, de Philip Roth, inspira o projeto de Felipe Munhoz
 
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Três derrames: um aos 12 anos, outro aos 18 e o terceiro aconteceu no último mês de novembro, aos 19. Esse resumo grotesco do histórico médico de Felipe Franco Munhoz dá uma pista da relação que ele tem com a vida. Seu coração é “uma pequena fábrica de derrames”, funcionando à sombra de um problema chamado Forame Oval Patente (FOP).

Antes do coração, foi a bronquite que quase o matou. Aos 2 anos, teve de sair de São Paulo por causa da poluição e se mudou com a família para Riviera de São Lourenço, no litoral do estado, onde morou até os 10. Dezoito famílias viviam na praia e nenhuma delas tinha filhos. A experiência está na origem da relação de Felipe com a literatura. Antes de vir para Curitiba, aos 11, passou um ano em Mogi das Cruzes.

Hoje, com apenas 20 anos, escreve como se tivesse às vezes a experiência de vida de alguém com o dobro da sua idade.

A notícia é que Felipe está entre os nove escritores selecionados pela Funarte no sul do Brasil (e um dos 60 do país) para receber uma bolsa de criação literária no valor de R$ 30 mil, a fim de desenvolver o seu projeto pelos próximos seis meses.

Aqui, a história fica ainda melhor.

Felipe venceu a disputa que envolveu também autores experientes – a Funarte publica a lista de quase 2 mil projetos inscritos, mas não os separa por região – com a proposta de fazer um romance baseado na obra de Philip Roth. O escritor norte-americano de ascendência judaica tem hoje 77 anos e é, fácil, um dos dez autores vivos mais importantes do planeta. Roth tem uma voz retumbante e facilmente reconhecível em romances como Homem Comum, Fantasma Sai de Cena e A Humilhação, para citar três dos mais recentes que falam sobre doença, decadência física, velhice e morte.

Obrigado a conviver com a ideia de que poderia morrer de uma hora para outra (todo mundo pode, na verdade, mas isso parece mais evidente para al­­guém com Forame Oval Patente), Felipe se identificou com o universo de Roth.

Na Riviera de São Lourenço, sem crianças para brincar e tendo de viajar 50 km até a escola mais próxima, passou a ler muito. Primeiro, gibis, depois vieram os livros.

Da intimidade com as leituras, veio a disposição para escrever. Na Gazeta do Povo, participou dos projetos Repórter-Mirim e Master, ambos do caderno Gazetinha. Depois da experiência no jornal, onde ficou dos 11 aos 16 anos, decidiu fazer algo diferente e estudou Publicidade e Propaganda. “Mas eu acabei me arrependendo. Poderia ter continuado com o Jornalismo”, diz. Hoje, trabalha na assessoria do Ministério Público do Trabalho e escreve. Aliás, escreve muito bem.

Ficção

“Há tanto dela em mim. Aprendi nesta língua sua forma de falar, herdei sua forma de pensar, compartilhamos uma forma – duplamente única – de amar. (...) Vez em quando tento nos imaginar desvencilhados, não consigo. Assim, todos os dias quando corro (um tanto perdido) para a encontrar, sinto-me estranhamente correndo para encontrar comigo”, escreve Felipe no conto “Eu”, parte do livro A Violência da Alma, ainda inédito.

O volume compila 17 histórias – uma delas foi enviada para a Funarte como parte do projeto – e várias qualidades aparecem nos textos. Entre elas, a relação que cria com outras obras e autores, como quando diz que “Deveríamos ter por perto um Cees Nooteboom [autor holandês de Caminho para Santiago] para nos pedir uma descrição exata de nossas (...) reações diante do primeiro medo, da primeira humilhação, da primeira mulher de nossa vida”. Em seguida, dá uma bela descrição do gosto de um primeiro gole de uísque: “fumaça com avelã”.

Foi conhecer Roth quando estava disposto a treinar a escrita de diálogos e o livro Mentiras caiu no seu colo. O romance é todo formado por diálogos entre um homem e uma mulher. Leu e ficou fascinado por Roth, o suficiente para buscar outros títulos do mesmo autor e para usar Mentiras como ponto de partida para o seu romance.

No projeto para a Funarte, Felipe explica que quer escrever um romance todo de diálogos que torne explícita a relação do livro que pensou com a obra de Roth. Além de comparar infâncias e tratar do processo de criação, ele se dispõe a dialogar com o próprio Roth, que deve aparecer na história.

O plano é escrever “da forma mais honesta possível”. “No entanto, sempre deixando margem para a dúvida: quanto da narrativa é verdade?”, explica Felipe no projeto. Pessoas que o conhecem um pouco tendem a descrevê-lo como um sujeito reservado e extremamente sensível. Filho de artistas plásticos – tanto o pai, Walter Munhoz, quanto a mãe, Maria Helena –, cresceu entre obras de arte, estranha as paredes vazias de quadros e começou escrevendo letras de música.

“Eu achava que, para escrever um livro, era preciso elaborar muito os personagens e os enredos”, diz. Na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) de 2008, conseguiu se hospedar na pousada onde ficam os autores graças a alguns contatos familiares. Acabou conhecendo o escritor alemão Ingo Schulze, que lhe deu um exemplar do livro de contos Celular (Cosac Naify). “Então caiu a ficha de que eu podia escrever com viés mais pessoal”, diz Felipe.

Na Flip do ano seguinte (2009), mostrou seus contos para o jornalista Humberto Werneck, que leu, fez anotações e devolveu o manuscrito de A Violência da Alma pouco depois.

Saber que Felipe decidiu escrever ficção há dois anos torna sua história ainda mais impressionante.

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