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Livro

O consumismo como personagem literário

As Coisas, de George Perec, fala do peso do consumo na vida de jovens dos anos 60 e permanece espantosamente atual quase 50 anos depois

Perec teve uma vida curta e marcada pela vontade de criar algo novo na literatura | Divulgação
Perec teve uma vida curta e marcada pela vontade de criar algo novo na literatura (Foto: Divulgação)

Quem vê os retratos de George Perec (como este, ao lado) em que seu rosto parece o de um bufão das antigas cortes europeias, ou lê sobre suas experimentações literárias (como escrever um livro todo sem a vogal mais presente no francês, o e) pode supor que ele era, acima de tudo, uma figura exótica. Mas o leitor que já conhece outro livro de Perec publicado no Brasil (A Vida – Modo de Usar, Companhia das Letras), que é sua obra-prima, não se deixa enganar. Perec é um grande escritor, tido em seu país natal como o nome mais importante da literatura francesa no Pós-Guerra.

Em As Coisas: uma História dos Anos Sessenta, seu livro de estreia, ele usa um narrador que descreve, sem rodeios, a vida de dois jovens inteligentes e ambiciosos, divididos entre a vontade de ter uma vida criativa e não convencional e a necessidade de trabalhar para ganhar dinheiro e atender a necessidades consumistas.

O tema do livro é, na verdade, o consumismo, que naquele início dos anos 60, assumia o papel de motor da sociedade. Os dois personagens, Jerôme e Sylvie, precisam de certos objetos e roupas para ser o que pretendem ser (pessoas de bom gosto e de bom nível cultural) e, principalmente, para mostrarem ao mundo o que creem ser. Eles são felizes por poderem prolongar a juventude devotada à apreciação do mundo, aos amigos e às descobertas – uma possibilidade que os anos 60 trouxeram. Por outro lado, estão constantemente frustrados com a dificuldade para obter os símbolos que os ajudariam a construir a imagem desejada de si mesmos.

As Coisas é espantosamente atual ao descrever o consumismo em todas as suas nuances. Veja este trecho: "No mundo deles, era quase regra desejar sempre mais do que se podia comprar. Não eram eles que tinham decretado isso, era uma lei da civilização, um dado de fato, de que a publicidade em geral, as revistas, a arte das vitrines, o espetáculo da rua, e até, sob certo aspecto, o conjunto das produções comumente chamadas culturais eram as expressões mais adequadas".

Matemático

Depois de ter publicado alguns livros, entre eles As Coisas, Perec se juntou ao movimento chamado OuLiPo, que reunia escritores e pintores em torno da ideia de fazer arte segundo algumas regras pré-definidas, algumas delas inspiradas pela matemática. Foi assim que produziu O Desaparecimento (inédito no Brasil), sem usar uma única palavra com a vogal e. Com isso, ele quis mostrar com a escrita o desconforto que uma ausência provoca. Ainda que, olhado superficialmente, o OuLiPo pareça uma esquisitice, ele atraiu autores sérios, como Italo Calvino e Raymond Queneau.

Perec prosseguiu com suas experimentações até chegar à A Vida – Modo de Usar, de 1978, um longo romance que descreve a vida dos moradores de um prédio em Paris, o que resulta naturalmente em um retrato da transitoriedade de todas as coisas. O romance (que foi publicado no Brasil pela primeira vez em 1991), lhe valeu o prestigioso prêmio Médicis. Só então ele pode deixar os empregos que lhe pagavam as contas e se dedicar totalmente à literatura (sonho de Jerôme e Sylvie). Quatro anos depois, aos 46 anos, Perec morreu.

Serviço:

As Coisas: uma História dos Anos Sessenta, de George Perec. Tradução de Rosa Freire d’Aguiar. Companhia das Letras. 120 págs. R$ 30.

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