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Foz do Iguaçu – O escritor Fernando Báez tem uma relação singular com os livros. Criado em uma biblioteca às margens do Rio Orinoco, na Venezuela, passou boa parte da infância entre eles. Essa trajetória chegou ao fim depois do espaço literário ter sido inundado e o acervo perdido. A tragédia estimulou Báez a tornar-se um defensor dos livros nos dias atuais. Autor de 15 obras, o escritor venezuelano é referência mundial nos estudos das bibliotecas e assessor da Unesco. Báez esteve em Foz do Iguaçu, para proferir palestra sobre a sua mais recente obra História Universal da Destruição de Livros: Das Tábuas Sumérias à Guerra do Iraque. Na entrevista à Gazeta do Povo, Báez fala sobre o livro e sua vida.

Gazeta do Povo – Qual foi o primeiro livro que o senhor publicou?

Báez – O primeiro livro foi Alejado, uma obra de poemas. Eu tinha aproximadamente 21 anos. Não foi fácil escrevê-lo porque a poesia é um gênero difícil e realmente nesse momento precisava encontrar uma forma de expressar minha solidão, e a encontrei na poesia. Os livros geralmente são resultados de grandes necessidades espirituais. Já a História Universal da Destruição dos Livros apareceu em 2004.

Como foi a recepção do livro?

Tive a sorte dele ter sido publicado na Espanha. Tudo ocorreu muito bem. No primeiro ano foram vendidos 200 mil exemplares. E isso para mim foi uma oportunidade enorme porque me permitiu sair do anonimato, do silêncio, e poder ocupar certos espaços públicos com outros livros.

E por que escrever sobre o tema da destruição de livros?

Pelo fato de eu ter amado os livros. Fui criado na biblioteca destruída por uma inundação. Não foi apenas a biblioteca que ficou destruída, mas sim meu refúgio, o lugar onde eu comia, aprendia a ler e escrever. Portanto, o trauma que senti foi imenso. E, ao longo do tempo, eu queria encontrar gêneros distintos para poder contar o que me passava. Eu acreditava que um ensaio curto ou um artigo em jornal poderia ser suficiente. Mas depois me dei conta que estava escrevendo um livro muito grande, que demorou 12 anos para terminar e o resultado desta viagem foi a História Universal da Destruição dos Livros. Mas há outros fatos relacionados ao tema. Quando me formei, os alunos que estavam comigo queimaram os textos escolares que haviam estudado porque diziam estarem muito cansados deles. Isso também me causou impacto. Sempre senti muito terror a destruição de livros.

O senhor menciona grandes personalidades que destruíram livros, entre eles, Platão e Hipócrates. A que se deve essa atitude?

Os intelectuais, ao contrário do que se pensa, têm sido os grandes inimigos dos livros. Talvez porque conhecem demais os livros e sua importância, seja mais fácil que os destruam. Um fato que me chamou atenção foi o de que não são ignorantes os que destroem os livros. A maioria é intelectual.

Como foi a desvastação cultural no Iraque?

Foram destruídas bibliotecas, universidades, escolas, monumentos, museus, obras de artes, assentamentos arqueológicos. Tudo isso, contamos no livro que saiu em 2005, A Destruição Cultural do Iraque, que não está traduzido para o português, e tem prólogo de Noam Chomsky.

Nesse sentido, a barbárie cultural no Iraque será uma perda para a identidade da cultura árabe?

Claro, não podemos nos esquecer que o que ocorreu no Iraque gerou uma lacuna da civilização. Ali o homem pela primeira vez começou a escrever. O Iraque não era qualquer país. É uma nação como fora a dos gregos, um país no qual nascem os valores mais importantes que hoje nós temos no mundo. O homem começou a escrever há 55 séculos no Iraque em tabuletas de argila. Tudo isso, por desgraça, foi destruído. Perdemos, por exemplo, parte do Código de Hamurabi, o primeiro exemplar de Mil e Uma Noites, além de edições originais de grandes filósofos árabes que contribuíram para divulgar o pensamento de Aristóteles e dessa forma ajudar a se conformar o pensamento filosófico da Europa. Atualmente, ainda se queimam livros no mundo?

Ainda há muita destruição de livros de forma contínua. Nesse momento, é possível que estejam sendo destruídos milhares de livros. As editoras destroem livros que não vendem, os convertem em polpa de papel, isso muitas vezes não se sabe. Também se destroem livros nas aduanas - livros piratas sem pagamento de impostos.

Serviço: História Universal da Destruição dos Livros, de Fernando Báez (Tradução de Léo Schlafman. Ediouro, 438 págs., R$ 49,90)

Fernando Báez, escritor.

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