
Água, alquimia, surrealismo e outros ingredientes deste vasto mundo aproximaram o escritor Otávio Duarte e o artista plástico Rones Dumke. Antes de tudo, experiências compartilhadas na passagem do tempo e repertórios comuns. Duarte aprecia artes plásticas. Dumke é leitor voraz. A conjunção recente gerou o livro Clepsidra, em que colagens dialogam com texto poético a partir de uma costura incomum.
Um recuo no tempo. O surrealismo é uma espécie de "filho pródigo" na trajetória de Dumke, hoje com 58 anos, que flertou com vertentes românticas e simbolistas e, em 1999, retomou o viéis surreal. Até o ano passado, empreendeu uma série de 400 colagens, fusão de gravuras antigas, algumas do século 18, com intervenções as mais inusitadas. Entre um engarrafamento e outra fila de supermercado, eis que Duarte orbita os caminhos de Dumke e, entre cafés e águas com gás, estava selada a parceria.
Duarte, de 55 anos, vasta quilometragem no jornalismo e nos livros, entre os quais Fanfarra Infante (poemas), Seis Romances e Uma Pintura (contos), passou a produzir breves poemas que conversam com as imagens dumkianas. Naturalmente, não se trata de legendas. Pelo contrário. "Eu faço o sinal da cruz, eu rezo o Pai Nosso/ Eu me prostro cinco vezes ao dia em direção a Meca", enuncia o texto que interage com a maior imagem presente nesta página. "O surrealismo pula o muro do filtro objetivo. Isso acontece nos meus textos".
Conjunções
Nem a aspereza da areia ou o tique-taque de eventuais ponteiros. Marcar o tempo por meio da água soa mais fluente e leve para Duarte e Dumke. Daí o título mais-que-perfeito para a obra, Clepsidra, nome que se dá a contadores de segundos, minutos, horas que, ao invés de areia ou ponteiro, usam água. "Além do mais, a água permeia tudo nesta vida", diz Duarte. Os líricos textos, ao lado das colagens, também se insinuam como uma breve história do mundo, mas podem ser lidos como um poema contínuo e mesmo "outra coisa". "A interpretação depende do olhar do próximo. Ler é algo subjetivo", diz Dumke, endossado por Duarte.
Dumke observa que as suas intervenções artísticas se irmanam com a idéia-força da alquimia. "Os alquimistas queriam passar mensagens, nem sempre de fácil compreensão. As minhas colagens, mesmo e apesar de elementos estranhíssimos e ícones mitológicos, têm a meta de comunicar algo", afirma.
Clepsidra, livro de formato 30 cm x 30 cm e 84 páginas em papel couché, tem projeto gráfico assinado por Guilherme Zamoner, e será lançado no próximo sábado (29) no Museu Oscar Niemeyer (MON), dia em que Dumke completa 59 anos. Mais do que mera sessão de autógrafos, momento para celebrar em meio a água, alquimia, surrealismo e outros ingredientes planetários.
Serviço
Lançamento do livro Clepsidra (Edições Rainha Louca, 84 págs., R$ 50) de Rones Dumke e Otávio Duarte. Museu Oscar Niemeyer (R. Marechal Hermes, 999). Sábado (29), das 11h às 14h. Entrada franca. Mais informações pelo telefone (41) 3350-4400.
"Eu faço o sinal da cruz, eu rezo o Pai Nosso./ Eu me prosto cinco vezes ao dia em direção a Meca./ Eu bato a cabeça no Muro das Lamentações./ Eu anulo a individualidade e quebro a cadeia dos renascimentos./ Eu conheço perfeitamente a posição do Lótus./ Eu ofereço alimentos./ Eu traço os gestos adequados./ Eu sei os números sagrados."









